sábado, 10 de dezembro de 2016

Pasolini o poeta do cinema italiano e sua visão do evangelho de Cristo.


Cena de "La ricotta" de Pasolini,  Recriação de obra maneirista do séc. XVI. 
Arrebatado pela estética pictórica dos afrescos e pinturas religiosas e, sobretudo, pelo encantamento do milagre da vida contido no evangelho, Pasolini dirige em 1963, “La Ricotta”. É um filme curta-metragem construído sobre uma narrativa metalinguística, onde uma equipe de cinema de origem estrangeira assaz profana filma a vida de Cristo nos arredores de Roma. Um eufemismo para Pasolini revelar a indiferença da classe média à corrosão das tradições através do mercantismo do evangelho. E parafraseando a si mesmo, Pasolini fala através de Orson Welles:

"- O senhor não entendeu nada, porque o senhor é um homem comum: e um homem de classe média é um monstro, um delinquente perigoso, um colonialista, um conformista, um racista e escravagista, indiferente. O senhor não existe ... O capital não considera existente a mão de obra, exceto quando servindo a produção ... e o produtor do meu filme é também o proprietário do seu jornal ... Goodbye ". Frase que Orson Welles diz a um jornalista que o incomodava, interpretando o papel de um Diretor de cinema no filme "La Ricotta" de Pier Paolo Pasolini. Trad. Autor.

Já dentro da temática da religião Pasolini dirige “Il Vangelo secondo Matteo” (1964), seu terceiro longa-metragem, com o qual aproxima-se ainda mais de temas religiosos, contrapondo-se aos dogmas e a tradição moralista da igreja. Com o filme Pasolini joga a luz do seu entendimento aos fatos que deram origem ao evangelho, o qual ele considera uma importante obra intelectual que une e integra o ser humano. Dentro ainda dessa mesma perspectiva Pasolini constrói a sua própria ideia sobre Jesus e o significado de sua trajetória à humanidade. Um filme cujo elenco ele escolherá entre universitários que não pertencem a uma massa amorfa burguesa, para tanto, avalia como diferencial para atuarem, o engajamento social e político deles na sociedade de hoje. A forma como a narrativa aborda os acontecimentos crucias do caminho de Cristo até sua derrocada morte na cruz é encenada de forma bastante simples e não mitizada. Em certos momentos temos a impressão de estar presenciando jovens revolucionários contemporâneos contestando na saída da escola. Podemos também avaliar Il Vangelo secondo Matteo como uma paráfrase da própria vida pessoal de Pasolini, perseguido continuamente na grande mídia italiana por aqueles que ele chamava de “moralistas” e “fascistas”. Ele, quase sempre tinha seu nome referenciado através de um substantivo adjetivado do tipo escritor incômodo, intelectual incômodo, cineasta incômodo. Mas o que mais incomodava os detentores do poder era a forma retumbante que Pasolini usava para jogar luz a questões inconvenientes. O resultado disso foi uma perseguição sem precedentes à sua pessoa que o leva a ser o cineasta com o maior número de processos da história do cinema italiano, parcela desses vingativos daqueles que exercem o poder.
Quanto a narrativa de Pasolini, ela é construída de adaptações daquilo que ele domina melhor, a história da arte, nas intersecções da literatura e da pintura, dois referências fortes que norteiam sua iconografia. Uma cinegrafia única, poética, inteligente, intuitiva, marcante e em alguns casos ideologicamente escandalosa e de impacto; a contar de seu estado de ânimo e de sua luta com o poder. Pasolini uma vez falou sobre a ideologia em seus filmes e a partir dessa sua fala podemos imaginar o que é o cinema para o escritor e poeta Pasolini:

Daquilo que resulta os meus filmes, visto pelo lado do que eles sofreram, quer dizer, por dentro, vistos por mim, devo dizer que estes últimos filmes, os filmes da Trilogia da vida, constituem para mim uma experiência maravilhosa. E os críticos – nenhum me parece – não conseguiram compreender o sentido que há pra mim, independente dos resultados – esta experiência, esse entrar no mais misterioso da engrenagem do fazer artístico, deste procedimento na ontologia do narrar, de fazer cinema, cinema como se via quando jovem, sem com isso ceder ao comercial ou a indiferença; isso, para mim é a idéia mais bela que tive, esse querer contar pela joia de contar, para criar mitos narrativos. Fora da ideologia, exatamente porque compreendi que fazer um filme ideológico é muito mais fácil que fazer um filme privado aparentemente de ideologia. Aparentemente: porque em todo filme existe uma ideologia, antes de mais nada, intrínseca em si mesma, quer dizer poética e depois externa, que é a ideologia política mais ou menos entendida. E é muito mais difícil fazer esse gênero de filmes nos quais a ideologia é indireta, escondida, implícita, que fazer filmes de tese e abertamente sobre uma ideologia. Pelo menos a mim é mais fácil, a mim que sempre fui um diretor ideológico, que sempre, em cada filme afrontei um problema, fazer filmes nos quais aparentemente não tem ideologia, onde tudo é solto em si, foi uma experiência muito fascinante. Mas nenhum crítico, me parece, teve a imaginação de compreender isso. E é por isso que sigo em frente nesta estrada apesar de todos não fazer outra coisa que me pedir “quando voltará a fazer filmes como uma vez?”. Não entenderam que se de mim esperam o escândolo, o escândolo é isso. (Pier Paolo Pasolini) Trad. Autor. 

Seus filmes aderem o seu estado de ânimo e passam a penetrar uma atmosfera edênica numa espécie de fuga da realidade, e filmes poéticos nascem (...)

 “No fundo o que é um autor cinematográfico? É um inventor de iconografia (...), porém esta iconografia é confiada a película, que é um pouco mais robusta que uma asa de borboleta.” (Pier Paolo Pasolini). 

Ao mesmo tempo Pasolini incorpora na imprensa o contestador colérico numa espécie de jornalista corsário; termo que passa a representá-lo. E é através de suas poesias, artigos em jornais e, sobretudo, do cinema que ele constrói seu pensamento escatológico sob uma ótica marxista da sociedade. Pasolini dotado de uma excepcional dialética aponta a exploração das classes inferiores por aquelas superiores. Ele faz isso com o cinema apontando a manipulação da mídia (Jornais e TVs), o abuso do poder do Estado, entes constituídos de poder que promovem um estimulo ao desenvolvimento através do consumo de supérfluo. Dispositivos opressores do ponto de vista do aprisionamento da consciência crítica, destruidores da subjetividade do indivíduo que leva a despolitização e nulidade do ser. Em sua cinematografia é possível ver essa sua abordagem direta ou indiretamente, particularmente em “Che cosa sono le nuvole”, episódio dirigido por Pasolini em “Capriccio all'italiana” (1968), e em “Pocilga” (1969). Muito do que ele prenunciou se concluirá de forma perturbadora nas décadas seguintes e sua conclusão sobre a vitória do capitalismo e suas conseqüências catastróficas para a humanidade culminam no degradante “Salò o le 120 giornate di Sodoma” - Saló ou 120 Dias de Sodoma (1975), lançado e subitamente proibido e retirado de circulação por décadas devido a fortes imagens de conotação sexual e alusão aos excessos do poder instituído pelo Estado. 



Luiz Chiozzotto

"Fragmento do Ensaio do último livro de Luiz Chiozzotto sobre o cinema italiano."




e-mail: chiozzotto@hotmail.com

terça-feira, 26 de julho de 2016

Silvano Agosti, o cineasta que escreveu "Como fazer um filme sem dinheiro ou como fazer isso melhor, sem gastar sequer um único euro"


Silvano Agosti nasce em Brescia, Lombardia, Itália em 23 de março de 1938. Roteirista, Editor, Produtor, Diretor Cinematográfico. Seu Cinema quase sempre é uma verdadeira poesia, sua paixão pelo Cinema vem agregada a liberdade do ser, a qual vem lamentavelmente encapsulada em dogmas, leis e tabus criados pelos governantes e impostos pelo sistema econômico vigente. No final da adolescência parte em busca da liberdade aportando primeiramente na Inglaterra, na casa onde nasceu Charlie Chaplin, realizando um desejo de infância de conhecer onde viveu o maior gênio do Cinema, de lá Agosti parte como um peregrino de mochila nas costas conhecer o mundo, passa um tempo entre a Inglaterra, França e Alemanha onde realiza os trabalhos mais braçais para acumular dinheiro e depois continuar a viajar até chegar ao Oriente Médio e por fim ao Norte da África. Ao retornar à Itália seu horizonte e as possibilidades de utilizar o Cinema como um meio de expressão e compreensão da liberdade ampliam-se. Em Roma matricula-se em 1960 no Centro Experimental de Cinematografia para poder dominar a técnica, na mesma classe de Marco Bellocchio e Liliana Cavani, ali seu curta-metragem “La Veglia” é premiado com o “Ciak D'oro” (como melhor aluno) em seguida vai a Moscou fazer uma especialização em montagem, cujo norte de suas pesquisas é “Ejzenstejn”. Se aplica na técnica de roteiro, diálogos e edição, e no desempenho desse ofício usa o pseudônimo de "Aurelio Mangiarotti". Com o seu filme “Il Giardino delle Delizie“ censurado na Itália, é homenageado pela “Expo Universal” de Montreal figurando como um dos dez melhores filmes do mundo daquele ano. De 1976 a 1978, atua como Professor de montagem no Centro Experimental de Cinematografia de Roma, mas demiti-se em função de divergências com a instituição. Com os anos seu desejo de viver em liberdade vai tornando-o um profeta do assunto; ressuscita “Paul Lafargue” (1842-1911), ao dizer que o homem deveria trabalhar apenas três horas por dia restando o resto do tempo livre para realizar-se como Ser Humano, o que ainda não somos. E é categórico quando replica que a liberdade vem constantemente agregada aos deveres e aos direitos do Cidadão em relação ao Estado, considerando que a vida de cada ser vivente já foi paga pelo trabalho de seus antepassados, por conta disso diz que todos temos direito a uma casa, e duas refeições por dia pagas pelo Estado. Se essa liberdade de viver fosse conquistada e se nos mantivéssemos como um sentinela sempre atento àqueles que querem tirá-la do homem, o mundo seria um verdadeiro paraíso. É atribuído a Agosti no final dos anos setenta, a ideia de um espaço único (hoje muito comum), de encontro de Cineastas em que fosse possível exibir filmes de Autor e também àqueles fora do circuito comercial, para tanto, ele assume um cinema no quarteirão Prati e assim nasce o Espaço “Azzurro Scipioni” em rua “Degli Scipioni”, 82, Roma, aberto também ao público em geral e que também é palco de palestras e discursos de Agosti e seus colegas sobre o seu postulado sobre a Liberdade e suas opiniões e sugestões sobre o Cinema.
Agosti é conhecido por seus filmes “Quartiere (1987), Uova di Garofano (1991) e L'uomo Proiettile (1995)” verdadeiras joias poéticas de aclamação a liberdade. A sua verve poética o leva a escrever vários romances e livros de poesia e um manual de como se fazer cinema com baixo orçamento, dentre suas obras literárias encontram-se: “L'uomo Proiettile; Il cercatore di Rugiada; Uova di Garofano; Il semplice oblio; Manuali Breviario di Cinema”, este último aborda o assunto "Como fazer um filme sem dinheiro ou como fazer isso melhor, sem gastar sequer um único euro. Para TV Rai Agosti fez a série: 30 Anni di Oblio e 40 Anni, ele também colaborou em vários programas de televisão de Fabio Volo. Em seus filmes Agosti prefere cuidar pessoalmente da fotografia, roteiro e edição por acreditar que um Cineasta deve se interpor na criação de sua obra, a fim de que sua ideia original não seja comprometida pela intervenção de outros profissionais no processo, prevalecendo sempre aquela ideia do Diretor. Agosti é também o projecionista de seu próprio cinema, e dentre suas idiossincrasias está um pedido à UNESCO e a ONU a fim de que o Ser Humano seja considerado Patrimônio da Humanidade.
Luigi Chiozzotto.