segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O cineasta dos sentidos - Franco Piavoli



Franco Piavoli nasce em Pozzolengo, Itália em 21 de junho de 1933. Produtor e diretor cinematográfico. Piavoli é laureado em Advocacia, mas não atua na profissão, seu amor pela fotografia, sua atração por biologia e a um tipo particular de cinema o leva a se especializar como documentarista, seus primeiros curtas-metragens remontam 1954/1964. Piavoli possui uma afeição particular pelo som e a fotografia, e usando do veículo cinema encontra uma maneira toda especial para se expressar. Já em seus primeiros experimentos demonstra sensibilidade e talento para captar os sentidos das coisas que dão forma ao planeta com uma decupagem estética acuradíssima. Piavoli inicia como um autodidata filmando em 16 e 35 mm e muitas vezes com o auxilio de lentes adaptadas de máquinas fotográficas consegue resultados espetaculares de som e imagem. Piavoli não se leva muito a sério, mantém-se fiel ao seu estilo, a sua maneira artesanal de filmar, ao caminho solitário que trava fora das salas de cinema. Não permite intromissões ou qualquer tipo de aferimento por parte do cinema corporativista realizando sozinho todas as etapas da produção. No começo dos anos 80’ ele é descoberto pelo cineasta Silvano Agosti que surpreso com seu talento o incentiva a realizar um longa-metragem. Assim nasce o primeiro filme mais elaborado de Piavoli, intitulado “Il pianeta azzurro” – Planeta Azul (1982), com o qual consegue se inscrever na Mostra de cinema de Veneza. Para o filme Piavoli capta elementos minúsculos que geralmente passam despercebidos aos sentidos, mas que possuem, não só uma geometria e cores espetaculares, como também sons de surpreendente harmonia. O som da água, seu movimento, o que carrega e o que esconde sob o leito dos rios; o som das máquinas que auxiliam o homem no seu bem-estar; a voz dos animais e a do homem. Esses elementos desapercebidos do dia a dia, os diferentes ruídos do campo e da cidade, é disposto por Piavoli em uma composição que lembra os trabalhos mais bem decupados de Andrej Tarkovskij. Piavoli reconstrói esses momentos trabalhando com uma sensibilidade poética toda sua, formando um mosaico policrômico, um concerto sinfônico, polifônico que desperta emoções e que eleva nossos sentidos.

Planeta Azul é um filme de duração normal e em 35 mm. Deveria ter sido feito “profissionalmente” por razões técnicas. Foi concebido para ser visto na tela grande. A passagem de 16 mm para 35 mm no início foi difícil, fiquei intimidado, tinha medo, sobretudo, de ter que me submeter às exigências distantes do meu modo singular e artesanal de fazer cinema. Medo na verdade de ser condicionado pela máquina chamada cinema. Mas depois vi que podia trabalhar da minha maneira e fiquei seguro (Franco Piavoli) (FALDINI&FOFI, 1984, p. 628). Trad. Autor.

No cinema conceito ou cinema dos sentidos de Piavoli, ou ainda cinema sinestésico como ele gosta que seja chamada suas experiências, essas imagens ganham um novo significado após a montagem. Com tratamento e recursos próprios e, sobretudo, pelo seu amor ao cinema; às vezes em companhia de sua esposa, mas quase sempre um trabalho solitário. Em 2003 Piavoli surpreende com o onírico “Al primo soffio di vento” - Ao primeiro sopro do vento, filme em que ele desenvolve a questão do despreparo psicológico do europeu no trato com o imigrante em seu território. Em uma fazenda na Lombardia ele constrói minuciosamente a história composta de jovens e fortes negros que trabalham felizes sob o calor escaldante do mês de agosto. Seus patrões gozam do privilégio de ocupar o tempo em uma biblioteca dentro da própria casa e a observar-lhes trabalhando duro. O filme atinge o seu climax com o surrealismo das cenas do sonho do patrão, onde os negros entram em sua casa para consultar os livros da biblioteca como se fizessem parte da família. Os filmes de Piavoli abordam novidades que estimulam os sentidos evocando contemporaneamente razão e emoção, filmes que nem sempre necessitam de uma história concreta senão fragmentos da vida humana espelhados sob o fluxo da vida no planeta.


Luigi Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Sessão comédia erótica para despertar e aplacar consciências - Nando Cicero


Nando Cicero nasce em Asmara, Eritreia, Etiópia em 22 de janeiro de 1931. Ator, Roteirista e Diretor italiano. Inicia no Cinema como Ator e contemporaneamente trabalha como Assistente de direção de grandes diretores italianos como Francesco Rosi, Luchino Visconti e Roberto Rossellini. Faz sua estréia na direção com “Lo scippo” (1965), comédia com Enrico Maria Salerno e Gabriele Ferzetti. Sua carreira a partir da década de sessenta se resume na direção de filmes western e comédias, entre o elenco de estrelas que dirigiu ao longo de seus vinte filmes estão Franco Franchi, Ciccio Ingrassia, Klaus Kinsk, Gabriele Ferzetti, Lando Buzzanca, Lino Banfi, Rossana Podestà, Gloria Guida, Marisa Mell, Nadia Cassini, Edwige Fenech. Durante os anos 70’, quando dirigiu comédias eróticas, muitas vezes foi classificado como pornográfico. Tinha atrizes como Edwige Fenech, Gloria Guida exibindo partes de seus corpos de maneira sensual, porém com a motivação para o riso, um apelo à liberação da mulher nos anos 60’. Esses filmes geralmente ganhavam restrições da censura sendo permitidos somente para maiores de 18 anos nas salas de cinema e quando muito para maiores de 14 anos. Essa componente erótica que Cicero usa hoje passa despercebida nas imagens veiculadas em TV e Cinema. Nando Cicero morre em Roma, em 5 de agosto de 1995.

Luigi Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com