quarta-feira, 11 de março de 2015

Canone inverso - Making Love - Rick Tognazzi



Canone inverso - Making Love é um filme de amor, sem dúvida, mas tem quem o ama e quem o odeia, não teve uma boa campanha de marketing em seu lançamento; conta uma história do passado ambientada durante a segunda guerra; toca no assunto do Holocausto com imagens de campo de concentração; primavera de Praga. Um gênero de filme que é feito com simpatia por Hollywood, pois os judeus da Academia do Oscar sempre premiam essas histórias e os produtores adoram ganhar dinheiro com nazistas batendo e judeus apanhando. Mas analisando enquanto filme, a fotografia de Fabio Cianchetti é verdadeiramente magnífica, o roteiro é inteligente e a música de Ennio Morricone nos premia com êxtase.  Canone inverso é para aqueles que adoram música clássica e filmes românticos, nesse sentido é ótimo como gênero, sobretudo nas cenas de amor entre os amantes Hans Matheson e Mélanie Thierry ao som de violinos em Praga, com aquela fotografia realmente encantadora. Talvez o tempo nos conte melhor como ele envelhecerá, e parece que vai ficar imune ao tempo. De qualquer maneira o filme ainda parece ser o chef-d'oeuvre do diretor Ricki Tognazzi, cujo pai Ugo Tognazzi sempre brilhou nas telas italianas.

Canone inverso é vencedor do  David di Donatello de Melhor Fotografia - Fabio Cianchetti, Melhor Música - Ennio Morricone e outros prêmios e nomeações. Canone inverso - Making Love, um filme de Rick Tognazzi, com Hans Matheson, Mélanie Thierry, Lee Williams. 

Luigi Chiozzotto
chiozztto@hotmail.com

Ensaio para o livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto.

Eu não tenho medo - Gabriele Salvatores


O filme "Io non ho paura" de Gabriele Salvatores, adaptação do romance de Niccolò Ammaniti para as telas de cinema, nos apresenta a triste história de um sequestro de criança.
Filippo (Mattia Di Pierro) é um menino milanês sequestrado no norte da Itália e mantido em cativeiro no sul. O filme é denso, amargo, pois a história forte lhe imprime essa atmosfera. Não sabemos o que irá acontecer com o garoto acorrentado e indefeso dentro de um buraco a 5 metros de profundidade. A condução da trama por Salvatores aos poucos vai transformando esse drama em um poderoso thriller de muito suspense.
Um dia crianças do lugarejo vão brincar exatamente na casa abandonada escolhida pelos sequestradores para esconder o menino. Michele (Giuseppe Cristiano) que tem a mesma idade de Filippo, durante uma brincadeira com os amigos perde os óculos numa corrida e ao se afastar do grupo para procurá-los encontra o buraco tampado com uma estrutura de folhas de zinco. A partir do descobrimento, Michele passa a conduzir a ação e veremos então o drama do garoto a partir de seu olhar de criança. O desejo de Michele de ajudá-lo mesmo correndo todos os riscos, sua coragem de retornar ao local varias vezes para alimentá-lo e dar-lhe forças para suportar o sacrifício, nos faz se apaixonar por ele. Pelo altruísmo inocente e puro de uma criança que não mede consequências de seus atos. Ele não pressente o perigo que está correndo se for pego pelos algozes sequestradores pois está demasiadamente preocupado em não deixar seus pais saberem que ele está tentando ajudar o menino. Entretanto, o pai de Michele descobre, através de reportagens da TV, e ligando os fatos das suas longas ausências do lar e do sumiço de comida da geladeira, que seu filho está envolvido com o menino Filippo. Ele descobre ainda que é um seu amigo um dos autores do sequestro e sabendo da crueldade desse seu amigo, pressente imediatamente uma ameaça à sua família. O pai de Michele agora está nas mãos dos bandidos que desconfiam que seu filho sabe da história, Nessa situação ele é obrigado a exigir do filho a promessa de que não retornará mais ao carcere. A partir desse momento Filippo fica literalmente abandonado e a mercê dos violentos bandidos. A história segue sob suspense; a crise de consciência toma conta do pai de Michele que não pode revelar à polícia quem é o sequestrador por medo de sofrer retalhações contra seu filho e contra sua família. E como desfecho da história uma bala desferida pelo pai de Michele acaba por atingir seu próprio filho, mas o final revela mais surpresas.
Io non ho paura é vencedor do Prêmio David di Donatelli e foi visto na festa do Oscar, por ser o escolhido entre os filmes italianos de 2003. Interessante também que o filme de Salvatores foi considerado pela Direção Geral de Cinema do Ministério Nacional de Bens Culturais italianos, como uma Obra a ser preservada como "Bem Cultural italiano".
Io non ho paura - Eu não tenho medo, um filme de Gabriele Salvatores, com Aitana Sánchez-Gijón, Dino Abbrescia, Giorgio Careccia.
Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio do livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto

terça-feira, 10 de março de 2015

La Stazione - Sergio Rubini

La Stazione,
filme de Sergio Rubini,
com Sergio Rubini, Margherita Buy e Ennio Fantastichini.

A história de “La Estazione”, A Estação, de Umberto Marino, já tinha sido sucesso no teatro italiano, e foi com essa experiência boa vivida no palco que Sergio Rubini debuta na direção repetindo a mesma história agora no cinema, obviamente com algumas alterações, a mais importante dessa versão para o cinema é a mudança do '"happy ending", na verdade um final menos original que aquele do teatro.  Sergio Rubini também faz o papel de Domenico, um chefe de estação metódico, acostumado a horários rígidos como aqueles dos trens que vão e vem todo o tempo, e que numa noite sem muito serviço conhece uma linda e indefesa garota (Margherita Buy - sua esposa à época), que está fugindo de seu namorado (Ennio Fantastichini), que bêbado demais a ofendeu numa festa. O tímido chefe de estação imediatamente se encanta com a garota, estabelecem uma relação afetuosa até que o namorado a reencontra. O que vem depois é pouco provável que na vida de um pacato chefe de estação possa vir a ocorrer, no entanto, estamos no cinema e tudo pode acontecer.
O filme ganhou vários prêmios: David di Donatello de Melhor Diretor Debutante, Ciak d'oro de Melhor Obra Prima, Nastro d'argento de Melhor Diretor Debutante e Prêmio Globo d'oro de Melhor Obra Prima, inserindo Sérgio Rubini no set cinematográfico definitivamente. Luigi Chiozzotto.

Punhos Cerrados - Marco Bellocchio



Sobre uma idílica colina em meio aos Apeninos italianos tem uma casa com uma prazerosa varanda, cuja vista dá para uma bucólica cidade rural, o silencio e as nuvens encostando nas janelas é um convite constante à contemplação. Ali vive escondida no seio de uma família italiana tipica, a violência e a fraqueza humana de forma claustrofóbica. Nessa família de Bellocchio a mãe é cega, uma de suas metáforas para falar das características das donas de casa que se anulam para preservar a tradicional família cristã, onde a mulher tem apenas o papel de reprodutora e protetora do lar e nada mais vê. Dos seus quatro filhos, Ale é o mais sereno, mas é doente mental, tem comportamento abobalhado, o outro irmão Leone, é um doente mental diferente, depressivo e mal, é cínico, sarcástico, no mesmo tempo que é muito ligado a irmã Giulia que é meiga, boa; uma representação da figura celestial da mãe, da irmã amiga. Giulia por sua vez é apegada a Augusto, o irmão mais velho, Augusto é aquele que ainda prove a família e de certa forma faz com que todos orbitem sob seus interesses.
Interessante que esse filme, o primeiro longa-metragem de Bellocchio e financiado inteiramente por ele, a época do seu lançamento foi recusado no Festival de Cinema de Veneza, não por ser incompreendido, mas por talvez ser muito além do seu tempo, talvez pela violência que ele representa, sobretudo, uma violência que está dentro dos lares e é muito difícil de ser detectada, senão, após uma tragédia. Como se Punhos cerrados fosse um retrato de uma realidade que não aceitamos poder existir, pressentida, mas que ninguém quer que seja verdade. Mas os meios de comunicação iriam demonstrar com uma frequência incrível que essas pessoas existem, e que iriam se comportar assim nos anos seguintes a década de 60, diante da imagem de si mesmas reproduzida na TV.

Como observou Sandro Bernardi, os filmes de Bellocchio nos últimos vinte anos nunca foram fáceis. Seu trabalho continuou ficando inquieto e cada vez mais isolado enquanto procurava aperfeiçoar seu estilo e capturar momentos de verdade que pudessem explicar os límites da vida diária. Ele queria entender a impossibilidade de aceitar leis, convenções e regras que desabilitam a autenticidade do indivíduo e o mantinham à mercê dos outros e capturar momentos de trusth que pudessem explicar os males da vida diária.”(BRUNETTA 2003), trad. Autor.

Como linguagem cinematográfica hoje sabemos que “I Pugni in tasca” mostrou um caminho no mínimo diferente aos cineastas que viriam após ele. Ao revê-lo hoje, notamos que é um filme que permaneceu jovem, detentor de um certo niilismo que o acompanha sempre, ficou nele uma certa reminiscência grotesca de Buñuel, um formalismo de Bresson. Podemos repudiá-lo, nausear-se com suas imagens, mas é difícil não gostar dele, sobretudo, esquecê-lo. A cena ao som de “La Traviata” com Leone tendo um ataque epilético é de um formalismo grotesco e ao mesmo tempo que nos causa dor, repulsa, também dá prazer. Nos coloca na situação de cúmplice de um delito grave, apresentando o mal numa situação de fragilidade, mas sem isentá-lo de culpa. Esse filme foi indicado por Martin Scorsese entre os 100 filmes italianos que o influenciaram como Cineasta.

Punhos Cerrados - "I pugni in tasca" de Marco Bellocchio,
com Lou Castel, Paola Pitagora, Marino Masé.


Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio sobre o livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz chiozzotto.

segunda-feira, 9 de março de 2015

O deserto vermelho - Michelangelo Antonioni





Vencedor do Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza, Il deserto rosso é uma das obras mais vultuosas do cineasta Michelangelo Antonioni do ponto de vista do expressionismo das cores e da espetacular composição da imagem. Deserto Vermelho é o seu primeiro filme colorido, é inegável o cuidado para com a fotografia que figura no filme como uma co-protagonista da história e a atualidade do tema. O envolvimento de nossas emoções se dão pela arquitetura de Ravenna envolvida pela chuva, neblina, poluição, elementos esses indicados por Antonioni e impressos na película com excepcional genialidade na impecável direção de fotografia de Carlo Di Palma. Sua fotografia imprime um marco indelével na história, representa a psicologia da sensível personagem Giuliana vivida por Monica Vitti. Ela é esposa de Ugo (Carlo Chionetti), gerente de uma usina local, uma esposa e dona de casa que está vivendo problemas psicológicos por conta de um acidente de automóvel recente e não consegue mais se comunicar com sua família e amigos como antes. Giuliana é uma jovem mãe pertencente ao mundo burguês da Emília Romanha e que ao contrário dos representantes dessa burguesia, devido a forte energia recebida pelo impacto do acidente automobilístico, fica mais sensível à degradação do planeta por dejetos oriundos de um comportamento exageradamente consumista dessa sociedade niilista e neurótica.
Giuliana não consegue se libertar desse circulo social conformista e alienado pelo consumo e ainda é forçada a frequentá-lo por exigências do marido, um elo valoroso dessa cadeia industrial. As cores e as formas constituídas na decoupagem representam e alteram sua psicologia em uníssono com seu estado interior. Um olhar de soslaio mostra ainda a destruição da natureza pela poluição oriunda das fábricas que assolam a cidade de Ravenna. Uma cidade que é apresentada por Antonioni sob um manto de neblina, que embora crie uma atmosfera soturna e poética, na verdade esconde uma força que degrada coisas e pessoas, um manto que a tudo esconde. Por certos versos essa neblina constituída de minusculas partículas de água poluída representa os detentores dos meios de produção que encobrem sua poluição a fim de não afetar a continua produção de produtos em suas fábricas. Deserto Vermelho encontra Antonioni no auge de sua sensibilidade artística, aborda de maneira brilhante a questão da incomunicabilidade e da solidão que afligem o homem contemporâneo, mas agora imbuído de elementos que apontam a exagerada produção de bens de consumo e o impacto ambiental que causa no planeta e em algumas almas mais sensíveis.

Il deserto rosso - O deserto vermelho.
Michelangelo Antonioni,
com Monica Vitti, Richard Harris, Carlo Chionetti, Xenia Valderi.

Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com

Ensaio do livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto.

Incompresa - Asia Argento

Incompresa,
um filme de Asia Argento,
com Charlotte Gainsbourg, Gabriel Garko, Gian Marco Tognazzi.
O título "Incompresa", em português tem a tradução ao pé da letra como Incompreendida, e conta a história de Aria, uma garotinha de 9 anos cujos país se separam de forma violenta e o amor que ela espera receber deles não a satisfaz. Um dia Aria coloca suas coisas em um saco, seu gato preto numa gaiola e atravessa a cidade em busca de ser compreendida.
 Asia Argento.

Habemus Papam - Nanni Moretti

Habemus Papam,
um filme de Nanni Moretti
com Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr.



Temos Papa é um filme recente de Nanni Moretti e conta-nos a história de um conclave que elege um Papa que não se sente de sê-lo ao momento de vestir a sua túnica diante dos fieis.

Nanni Moretti ao longo dos anos tem se mostrado muito sensível e honesto para com os sentimentos humanos, mesmo aqueles mais sofridos, aqueles que afligem a alma, neste filme não poderia ser diferente e tocou a túnica do maior representante do cristianismo na terra de maneira nobre, com respeito e com uma sutil ironia. O Papa, interpretado por Michel Piccoli é grande na interpretação, representa um homem humilde diante da grande personalidade que é aquela de um Papa. No papel de Papa dá pra perceber que ele sentiu, ou mostrou sentir, a responsabilidade de se permitir duvidar da fé, e sem parecer um covarde. A personagem parece um sincero conhecedor dos limites e paixões de um ser humano, principalmente a de um Papa. Lembramos Wojtyla  pois neste, o Papa também tem um envolvimento com o teatro, o qual sempre esteve presente em sua vida (uma referência ao Papa Wojtyla). É a partir destes questionamentos todos que o filme de Morettti vai ganhando grande força na tela, e a coragem dos que ousam dizer não a Deus, não por medo, mas por estar convencido de que não poderia servir através de uma túnica papal a humanidade. O Papa de Moretti toca em cada fotograma do filme em sentimentos profundos, tanto de fiéis como o de leigos, como se eles fossem, cada um deles um pedaço de nossos corações.
Habemus Papam é vencedor dos prêmios David di Donatello, Nastro d'argento, Globo de Ouro, Ciack D'oro, European Film Awards, dentre outros importantes prêmios. Luigi Chiozzotto.

A trapaça - Federico Fellini

A Trapaça,
de Federico Fellini,
com Broderick Crawford, Richard Basehart, Franco Fabrizi, Giulietta Masina.
 
A trapaça é o nome dado em português para "Il Bidone", titulo original do filme em italiano, um clássico dos anos 1950. 
Federico Fellini nunca nos decepcionou, muito menos nas suas primeiras histórias, a emoção contida nos seus filmes funcionava como caixinhas de surpresa bem montadas, cheias de adornos encantadores que quando abertas revelavam detalhes que nos levam para um outro lugar, nos elevando junto o espírito. Nesta história passada na Itália dos anos 50, três vigaristas vivem de pequenas trapaças, aproveitando-se da ingenuidade dos pobres que encontram pelo caminho numa Itália assolada e martirizada pelo pós-guerra. Augusto (Broderick Crawford - Oscar® de melhor ator por A Grande Ilusão), é quem comanda o pequeno grupo de marginais, mas já começa a sentir o peso dos anos, não se move mais como antigamente, e nesse negocio é importante ser um gatuno. Depois de muitos trambiques, naturalmente começa a reencontrar suas vitimas pelas ruas de Roma e tudo isso começa a fazê-lo repensar sua vida. 
Fellini realizou um filme poderoso com uma história aparentemente simples e muito comum na época do pós-guerra, valorizado pelas interpretações de Broderick Crawford, Richard Basehart (La Strada), Franco Fabrizi (I Vitelloni) e Giulietta Masina (Noites de Cabíria). A Trapaça é um filme inesquecível pela sua humanidade, sua verdade e a fragilidade das pessoas por ele representado, mesmo quando elas são quase sempre más. Luigi Chiozzotto.

La mia generazione - Wilma Labate

La mia generazione,
um filme de Wilma Labate
com Claudio Amendola, Silvio Orlando, Francesca Neri.

Uma história que a primeira vista poderia nos fazer lembrar Rocco e seus irmãos, do celebre Luchino Visconti, mas qualquer semelhança além daquela da partida do sul da Itália para uma vida melhor em Milão, é uma mera semelhança. Aqui em La mia generazione as expectativas de mudança recaem sobre a possibilidade de um lugar melhor numa cadeia ao norte da Itália. Um lugar melhor para criminosos terroristas como Braccio, há alguns anos preso e que poderá em Milão ser mais útil para as investigações e na visão de Braccio poder rever a namorada. O filme é uma experiência psicológica que parafraseia a vida real de terroristas que não querem colaborar com a justiça, que são tipos solitários, e da parte da polícia é uma estratégia para fazer Braccio colaborar com a justiça. Mas será que ele vai colaborar, e o que vai acontecer durante as 24h de trajeto entre as duas cidades? O filme foi escolhido para representar a Itália como Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, e ganhou o Prêmio Grolla d'oro de Melhor Filme em 1997. Luigi Chiozzotto.
Michelangelo Antonioni.

Crimes da Alma - Michelangelo Antonioni



Crimes da Alma. (Sugestão de Martin Scorsese).
Um filme de Michelangelo Antonioni,
com Lucia Bosé, Massimo Girotti, Ferdinando Sarmi.

Dificilmente esqueceremos Paola a protagonista de Cronaca di un amore, título original em italiano de um grande sucesso de Antonioni.
O que pode acontecer no mundo dos ricos e poderosos atrás de um bom partido para casar-se? E quando se contrata detetives para investigar a amada? Mais intrigante ainda fica a história quando o próprio marido procura na agencia matrimonial histórias do passado de sua própria esposa. Mas o amor poderá superar o passado e esquecer um assassinato? O problema é que existem detetives que pensam que todo crime não deve ficar impune e toda investigação deve ir até o fim. Com esses elementos de "Trhiler noir” é que Michelangelo Antonioni constrói um dos seus melhores filmes, indicado entre os 100 melhores filmes que você tem que ver segundo Martin Scorsese (Taxi driver), o cineasta americano e grande admirador do cinema italiano. Luigi Chiozzotto.

Europa'51 - Roberto Rossellini

Europa'51.
Direção de Roberto Rossellini,
com Ingrid Bergman, Alexander Knox, Ettore Giannini.
Em Europa 51, uma das obras-primas de fundo psicológico do mestre Roberto Rossellini a estrela, Ingrid Bergman (Casablanca), em uma das maiores atuações de sua carreira, e a inesquecível Giulietta Masina (Noites de Cabíria), estão imagéticas. Durante a II Guerra, Irene, mãe de um garoto muito sensível de 12 anos passa 24h do tempo protegendo-o e consolando-o durante os bombardeios americanos sobre as cidades italianas, assim ambos encontram na companhia um no outro a força para superar o conflito. Quando a guerra acaba, ela reata a vida a alta sociedade, uma vida cheia de compromissos e mal tem tempo para cuidar do filho, que mergulha em uma profunda crise e busca um novo sentido para sua vida num mundo sem guerra e sem as atenções da mãe. Vencedor do Prêmio Internacional no Festival de Cinema de Veneza, Europa 51 é um drama de rara beleza dirigido com brilhantismo por Rossellini. Um clássico do Neo-realismo. Aquelas mães que não aproveitam a presença do filho durante a sua infância vão se reconhecer na personagem de Ingrid Bergman. Luigi Chiozzotto.

O Ferroviário - Pietro Germi

O Ferroviário.
Direção de Pietro Germi,
com Pietro Germi, Luisa Della Noce, Sylva Koscina.

Um dos maiores clássicos do Neo-Realimo, O Ferroviário é do mestre Pietro Germi (Divórcio à Italiana) ele dirige e brilha como ator nessa obra-prima que traz um painel da sociedade italiana na década de 50, uma fotografia em preto e branco espetacular, sequências feitas no trem, com ângulos de câmera muito bem colocados e velocidade das locomotivas que são de tirar o fôlego. Andrea Marcocci é um veterano ferroviário que passa por uma crise, devido a problemas no trabalho e o relacionamento difícil com o casal de filhos pós-adolescentes, e mesmo recebendo muito carinho do seu filho de seis anos, que a todo tempo está a sua procura, ele vive brigando com a família. Seu esgotamento nervoso e circunstâncias do trabalho conduzem-no a uma tragédia, o trem rápido de passageiros Roma – Firenze que comandava sofre um grave acidente. Marcocci entra em depressão e mesmo os carinhos afetuosos da esposa não são suficientes para ele voltar ao normal, se entrega à bebida nos bares de Roma. Com uma linda trilha sonora, O Ferroviário é um daqueles clássicos que emociona, diverte e nos faz refletir sobre a vida que passa, tão rápido como um trem pela estação. Luigi Chiozzotto.
Atriz italiana Monica Vitti.

O Incrível Exercito de Brancaleone - Mario Monicelli

O Incrível Exercito de Brancaleone
Direção: Mario Monicelli,
com Vittorio Gassman, Catherine Spaak, Gian Maria Volontè.

Título Original L'Armata Brancaleone, em plena Itália do Século XI o cavaleiro Brancaleone (Vittorio Gassman), uma especie de Don Quixote maltrapilho, forma um exercito de quatro miseráveis mortos de fome e parte em direção ao feudo a que julga ter direito.
Durante o longo percurso pela Europa da Idade Média, no lombo de um pangará chamado "Aquilante" (uma referência de Don Quixote), ele se defronta com inúmeros problemas,  a peste negra, bruxas e bárbaros de todas as espécies, um amor mal resolvido com a linda, doce e esperta 
Catherine Spaak, quem ele promete manter a virgindade. Armata Brancaleone é uma sátira demolidora dos conceitos de honra e coragem sobre os heróis medievais jamais feitos. Uma obra prima do cinema italiano, uma das melhores comédias passadas na idade média de Mario Monicelli, onde todo dialogo Mario Monicelli fez questão que fosse dito em dialeto e algumas falas tiveram de ser gravadas em estúdio e acrescentadas depois devido a dificuldade dos atores de lembrar-se do texto. O filme teve uma sequência por exigência dos produtores,  Brancaleone e as Cruzadas, também dirigida por Mario Monicelli.
Luigi Chiozzotto.

De Crápula a Herói - Roberto Rosselini



Il Generale della Rovere junto de I solti ignoti de Mario Monicelli, são vencedores do Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza. 
Il Generale della Rovere - De Crápula a Herói, é uma das obras-primas do mestre Roberto Rossellini construída em uma narrativa ao estilo neorrealista que ao ser comparada as suas obras anteriores pode ser considerada como uma das mais bem elaboradas. Do ponto de vista da desconstrução de um ator no ato de sua interpretação Rossellini é um mestre, sua ideia de mostrar os fatos ao invés de demonstrá-los como faz o cinema tradicional consegue manter a história ainda mais real, sob uma atmosfera de documentário, muito parecido com Roma, città aperta. Tal empreitada rosselliniana foi um sucesso também devido a impressionante atuação de Vittorio De Sica no papel principal. 

Eu mostro as coisas, não as demonstro. Faço um trabalho de reconstrução, ponto e basta. Demonstrar o que significa? Significa pensar as coisas, vê-las por certo ponto de vista, depois reconstruir tudo aquilo que pode dar emoção para ser “persuasivo” e prevaricar sobre os outros. Eu me esquivo completamente de tudo isso. Se uma emoção aparece, aparece dos fatos, como são. (Roberto Rossellini) (FALDINI; FOFI; 1984, p. 112) Trad. autor.

Durante a Segunda Guerra, o impostor Emanuele Bertone, fingindo ser um coronel do exército italiano explora seus compatriotas, prometendo interceder junto aos nazistas por seus familiares que foram presos pelos alemães. Um dia é denunciado pelas pessoas que por ele foram enganadas, é preso e lhe é proposto dois tipos de julgamento pelos alemães que impreterivelmente poderá levá-lo à morte. Num primeiro momento, para livrar-se do fuzilamento aceita colaborar com o plano da Gestapo, passando-se pelo general Della Rovere, chefe da Resistência, que havia se tornado um vulto da liberdade, um herói do povo italiano que ambicionava livrar-se do nazifascismo de Hitler e Mussolini. Dentro da prisão aparentemente, ninguém conhece fisicamente Della Rovere, e assim Bertone será de grande valor aos nazistas para ajudar a identificar os líderes do movimento que estão entre os presos. 
Vittorio De Sica e Hannes Messemer em Il generale Della Rovere
Para tornar mais verossímil o General entre os presos, Bertone é tratado no carcere com mordomias entre os políticos italianos da resistência. Mas será que entre os presos políticos alguém não identificará a farsa? No decorrer dos dias na prisão Bertone se envolve com o grupo da resistência italiana e se arrepende do plano com os nazistas. De Sica durante o caminho de ascese da personagem Bertone esvazia-se de todos os seus estereótipos de interpretação, tornando o General Della Rovere uma manifestação única em sua carreira, nem parece estarmos diante a De Sica. Ele faz isso para vir ao encontro do estilo neorrealista do amigo Rosselini. 
Dirigido com rigor por Rossellini, De Crápula a Herói é uma excelente adaptação de um conto do famoso jornalista italiano Indro Montanelli (1909-2001) e um excelente filme para quem gosta de histórias sobre a II Guerra, seja pela atmosfera criada por Rossellini na população sob o jugo dos nazistas em Roma, seja para compreender a engenhosidade construída pelos alemães na tentativa de subjugar os inimigos do regime nazifascista.

Il Generale della Rovere - De Crápula a Herói.
Direção de Roberto Rosselini, com Vittorio De Sica, Hannes Messemer, Vittorio Caprioli.

Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio para o livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto

Armando Testa - Povero ma moderno - Pappi Corsicato

Armando Testa - Povero ma moderno, 2009.
Direção de Pappi Corsicato,
com Lucilla Agosti, Gemma Testa.
No filme a história é contada em forma de um documentário, uma biografia de um dos precursores do Pop Art italiano, o poeta da imagem e o mais importante publicitário italiano, Armando Testa, o filme é ambientado entre os anos 50 e 60, na cidade de Turim, que graças as indústrias ali existentes vivia um boom econômico e um natural contraste entre a modernidade e a pobreza daqueles italianos do sul que lá iam para melhorarem de vida. O filme conta ainda com imagens originais da época, com entrevistas restauradas, cujo material foi disponibilizado pelos arquivos de Gemma De Angelis Testa e da Armando Testa SPA. Armando Testa revolucionou os spots publicitários na Itália influenciando diretores de arte de sua época. O filme Armando Testa – Povero ma moderno, provem da definição que o artista fazia de si mesmo, onde esses dois elementos contribuíam significativamente na sua poética. É um documentário de 60’ patrocinado pela Piemonte Doc Film Fundation e pela Film Commission Torino Piemonte. Diretores de arte, publicitários e artistas em geral deveriam conhecer a vida de Armando Testa, esse artista Pós Moderno que viveu além de seu tempo. Luigi Chiozzotto.
Claudia Cardinale.

Vagas Estrelas da Ursa - Luchino Visconti


Vaghe Stelle dell'Orsa é uma das obras-primas do mestre Luchino Visconti, o filme também conhecido pelo nome de Sandra, é vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza. Esse clássico do cinema italiano traz Claudia Cardinale no auge de sua beleza ao lado de Jean Sorel, num dos melhores momentos de sua carreira como ator, esbanjado sensualidade num papel de nuances de amargura, cinismo e soberba. Cardinale interpreta brilhantemente Sandra, uma personagem vitima de um amor platônico, e que tem no silêncio a cruz que deve carregar. Baseado nos versos iniciais de um poema de Giacomo Leopardi, e com um roteiro impecável de Suso Cecchi D'Amico, Visconti atualiza a tragédia grega Electra. Visconti faz isso ao nos contar a história de uma jovem recém casada, que acompanhada do marido, retorna a Volterra. Nessa cidade toscana Sandra nasceu e passou a infância e embora esteja há muitos anos ausente, só aceita retornar pois deve participar de uma homenagem da prefeitura da cidade ao falecido pai. Parte do quintal da mansão da família foi doado à cidade para uso público. Também um busto de seu pai, um judeu vítima do holocausto contemplará o lugar. 
Durante seus dias na cidade ela tem ainda que legalizar documentos sobre a propriedade no cartório da cidade e rever antigas desilusões. Na enorme casa repleta de moveis de um passado repleto de glórias da família, Sandra se sente frágil e desamparada diante as lembranças. Estatuas e quadros de artistas famosos adornam os imensos cômodos e corredores que dão para incontáveis quartos. Mas toda essa opulência arquitetônica não encontra em Sandra nenhum interesse de permanecer ali. Ambientes escuros e sombrios que guardam segredos escondidos em bilhetes com frases comprometedoras causam escândalos a cada passo. 
No meio da noite, quando o único som que entra pela janela é aquele dos ventos uivantes, um estridente som de portão batendo revela em meio a escuridão do quintal da mansão, a presença de Gianni (Jean Sorel). Andrew (Michael Craig) então conhece finalmente o problemático cunhado que retorna bêbado da cidade. Em poucos dias Andrew acabará descobrindo muito mais sobre as bebedeiras noturnas de Gianni e sobre sua própria esposa. Os dois, não obstante pareçam se amar como dois irmãos, na verdade compartilham um terrível segredo sobre seu passado. E para Andrew desvendá-lo é preciso perambular por cada cômodo da mansão, remexer gavetas, encontrar-se com pessoas do povoado, fazer perguntas aos amigos de escola dos irmãos. 
Ao som da triste música de César Franck, Visconti realiza um drama fascinante sobre a memória familiar e todo o dano que relembrar o passado pode causar em alguém. Um filme que fala sobre a desagregação familiar, da decadência da burguesia italiana e sobretudo, sobre o valor de um amor verdadeiro e quanto ele pode fazer alguém superar todas as tragedias do passado.
Vagas Estrelas da Ursa de Luchino Visconti, com Claudia Cardinale, Jean Sorel, Michael Craig.
Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio para o livro "Filmes que projetaram a identidfade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto.
Giancarlo Giannini e Elio Petri.

Buone Notizie - Elio Petri


Elio Petri é um dos maiores cineastas do mundo e o maior esquecimento coletivo do povo italiano, foi um revolucionário, tocou em temas que enfureceram os políticos de maneira majestosa, falou duro e com poesia em seus filmes. Mas na distância do tempo, com o "não querer falar mais dele", por vergonha ou culpa, a Itália resolveu esquecê-lo. Atitude quase sempre comum acontecer com aqueles que lutam por condições melhores para todos e que incomodam a ordem burguesa. No Brasil foram proibidos seus filmes durante a ditadura militar, por se tratar de conteúdo lesivo ao regime. Porém mais de duas décadas depois, no final dos anos 80, faculdades de comunicação começaram a exibir seus filmes, o primeiro deles foi "A classe operária vai ao paraíso", mais tarde "Um cidadão acima de qualquer suspeita" cuja atriz principal é a brasileira Florinda Bolkan. Ainda hoje seus filmes falam de temas atuais, pois a sociedade continua a produzir desigualdades sobre um suporte democrático corrompido pela corrupção e o crime organizado. Petri começou a dirigir aos 43 anos, fez pouco filmes pois morreu uma década depois, mas o que ele nos deixou é imagético. “Buone Notizie” foi o seu último filme e é impressionante nele o domínio da linguagem cinematográfica, estamos realmente diante de um gênio da cinematografia. É um filme que fala de amor, de casais que com o tempo vão perdendo a comunicação entre si, de reencontros com o passado e que causam náusea por recolocar em cena tipos que um dia representamos socialmente e que não nos identificamos mais no presente. Um envelope misterioso contendo uma mensagem intrincada que pode botar tudo a perder ou não, faz com que o protagonista tenha que restabelecer contato com um ex colega da escola primária, um tipo bastante inconveniente e cheio de manias esquisitas e que não mudou muito após tantos anos. Alguém que o protagonista nunca imaginou reencontrar na sua existência, mas que está lá naquela carta enigmática. Considerando o período em que o filme foi feito, dos problemas pessoais que Petri enfrentava em relação ao seu medo da morte, poderíamos interpretar como uma metáfora de seu alter ego em conflito. O filme funciona ainda muito bem como um suporte psicanalítico para Petri abordar questões mais emergentes sócio-políticas de sua época, que estavam na ordem do dia: a inconsciência da classe média por exemplo para as questões sociais aliado ao analfabetismo político. E se em suas obras anteriores Petri tinha Marx como ulterior de seus questionamentos políticos e sociais, em Buone notizie eles se baseiam em teorias de Reich e Freud, dentro do terreno à época em voga: a psicanalise e a crise existencial, esta última que impreterivelmente não permite que o indivíduo permaneça igual após afrontá-la em sua experiência terrena. O filme em certos momentos lembra os divertidos filmes de Truffaut dos anos 60/70 vistos a partir do estilo de narrativa construída por Petri, deferente de seus filmes anteriores. Buone Notizie tem no papel principal Giancarlo Giannini, que é também o produtor do filme junto com Petri, tem ainda a participação de Ángela Molina, Paolo Bonacelli e Aurore Clément. 

Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio sobre o livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto