sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A televisão poupa as pessoas de conversarem, liberta-as da reflexão, do diálogo interior.

Quem melhor do que Federico Fellini, o grande cineasta, antropólogo e sonhador italiano para melhor questionar a influência maléfica exercida pela televisão na humanidade? Neste fragmento de reflexão contida em seu livro ICHI, FELLINI.



“A televisão fala com um público que é indefeso e, muitas vezes, não tem consciência da presença dela. Seus programas banais e seus falsos valores são transmitidos para pessoas, que telefonam diante da tevê ligada, brigam umas com as outras ou comem caladas. Ou adormecem diante dela – o que acho que é o melhor. A onipresença da televisão, determinada quase que exclusivamente por interesses comerciais, é um perigo para a geração que deixa por conta dela, com boa vontade demais, o pensamento e a educação dos filhos. (... ) As pessoas acreditam na televisão. Elas a consideram uma amiga, que lhes fala em suas casas, que lhes faz companhia à mesa e na cama. A televisão se tornou tão poderosa que, quando muitas pessoas chegam em casa, primeiro ligam o aparelho antes de tirar o casaco. Muitos adormecem à noite diante da tevê, que continua funcionando, falando sozinha até a programação chegar ao fim e a tela brilhante iluminar o ambiente. A televisão poupa as pessoas de conversarem, liberta-as da reflexão, do diálogo interior. Em seguida, apodera-se dos sonhos. Qualquer um pode participar de um programa à noite, em sonho, e ganhar uma geladeira. As pessoas se distanciam não apenas daqueles que lhes são próximos, mas também de si mesmas. Acho que não é só imaginação minha pensar que os jovens de hoje conseguem articular-se pior do que antes da introdução da televisão.” (Federico Fellini), CHANDLER, 1994, Trad. Reinaldo Guarany

domingo, 12 de março de 2017

A impotência sexual retratada em "O belo Antonio".

Claudia Cardinalle e Marcello Mastroianni - set Il bello Antonio.

Em “O belo Antonio” Mauro Bolognini conduz a história sob um estilo de direção com acentuada influência formalista, o filme possui uma contundência que abala a sociedade italiana, principalmente os mais ortodoxos católicos ao contar no cinema a história escrita por Vitaliano Brancati. Bolognini se aproveita do resultado excepcional da fotografia em preto e branco de Armando Nannuzzi - um dos maiores diretores de fotografia italianos - que explora o contra-luz, a luz difusa, controlada com sutileza e em uníssono para mimetizar o sofrimento de um homem frágil escondido nas sombras de sua impotência. O roteiro cuidadoso, bem feito é de Pier Paolo Pasolini, que mesmo sem entender muito de direção a época, ao avaliar o resultado de seu trabalho como roteirista no filme, considera-o lento e dúbio. Talvez porque sua primeira experiência na direção ainda iria acontecer em 1961 com "Accattone" e assim não consegue apreçar esta obra sem ter experimentado o ponto de vista de um Diretor cinematográfico. A história discorre sobre o jovem e belo siciliano Antonio (Marcello Mastrioanni), que retorna à Catania após concluir seus estudos na capital, Roma, Antonio representa a beleza, o refinamento e a virilidade somadas ao “gentil’uomo” italiano. Seus pais orgulhosos o consideram um “Don Giovanni” e estão ansiosos para que ele se case, passam todo tempo a questioná-lo sobre o assunto, lembrando-o do nome de diversas jovens da cidade que ainda estão solteiras. Chateado com o assunto e não sabendo mais que desculpa dar aproveita a primeira oportunidade para escapar dos questionamentos dos pais quando o primo Edoardo (Tomas Milian), o convida para ir a uma festa.
Na festa sua beleza fulmina as mulheres presentes, mas nenhuma lhe desperta interesse a não ser a foto de alguém ausente na festa: “Barbara”, uma jovem encantadora, filha de um importante Tabelião da cidade e interpretada por Claudia Cardinale. Na mesma noite, voltando da festa acorda os pais e anuncia ter encontrado sua futura esposa mostrando-lhes a fotografia. Uma cena muito cômica, pois o pai radiante de felicidade, vestindo pijama, abre a janela aproxima-se do balcão da sacada e anuncia no meio da madrugada e em alta voz para à vizinhança, a decisão acertada do filho.
Nos dias que se seguem Antonio e Barbara são apresentados um ao outro e enfim se casam; o pai de Antonio possui uma fazenda com uma casa aconchegante e o jovem casal vai viver o inicio de suas vidas naquele paradisíaco ninho de amor, preparado com primor pelas famílias para receber o casal. Claudia Cardinale, magnífica como Barbara, a garotinha virgem, filha de família tradicional, nos primeiros dias, não obstante, as minúsculas vestes que usa, não consegue fazer Antonio se aproximar dela o suficiente para despi-la. O tempo passa, Antonio a envolve nos braços num dia, no outro a beija ardentemente parecendo estar prestes a invadir-lhe o corpo, mas o que se vê é apenas um beijo demorado. Outros dias se passam e Antonio apenas preenche o tempo bajulando-a com presentes, poesias e palavras galanteadoras, sem no entanto dividir com ela os seus fluidos do amor. Barbara já não suportando a situação telefona aos pais, uma elipse acontece e a vemos já na casa dos pais novamente. Sua virgindade ainda não fora violada e a vergonha pelo “não feito” então recai sobre Antonio e sua família. O pai de Antonio contra ataca dizendo que a virilidade do filho é ilibada e que é a filha do tabelião que é frígida espalhando a sua versão da história pela vizinhança. Antonio diante de seu problema e ainda apaixonado por Barbara tenta com todas as forças protegê-la da fúria de seu pai, sem encontrar as mesmas forças para revelar seu problema e nem mesmo para reconquistá-la. O matrimônio é desfeito no tribunal de justiça da cidade ficando Antonio atormentado com as lembranças dos dias que conviveu com ela em núpcias sem conseguir ir as vias de fato para consumar o casamento.
A história triste de um homem cuja ereção não acontece foi explorada esplendidamente pelo diretor Mauro Bolognini, que ataca de forma elegante a sociedade moralista siciliana, muitas cenas ousadas tanto na forma como no conteúdo passaram despercebidas pela censura da época, muito ocupada com a revolução da linguagem cinematográfica de “La dolce vita” de Federico Fellini (1960). O titulo do filme acabou por se tornar um predicado para aqueles homens que não mostravam muito interesse pelo sexo feminino, tamanha a força das imagens do filme e particularmente as interpretações de Mastroianni e Cardinale.


Il bell'Antonio de Mauro Bolognini
com Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Thomas Milian, Pierre Brasseur, Rina Morelli. 

Do ensaio do livro "O melhor do cinema italiano" editora Luxstudium, de Luigi Chiozzotto.