sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O cinema é uma arte vulgar por conter códigos muito precisos - Carmelo Bene


Carmelo Bene nasce em Lecce, Itália em 1937. Ator, roteirista, diretor cinematográfico. Bene pertence a uma família burguesa, tem uma personalidade contraditória, complexa e anarquica, bem cedo desiste do curso de Direito na La Sapienza para estudar na Academia Nacional de Arte Dramática Silvio d'Amico em Roma e na escola de recitação Sharoff. Até se considerar superior a didática e abandoná-las para formar sua própria companhia de Teatro na qual foi extremamente barroco, iconoclasta, experimental e consequentemente de vanguarda. Possuidor de uma vasta cultura, interpreta grandes clássicos quase sempre alterando seu conteúdo e forma, e por vezes criticando o próprio teatro oficial. Já o seu cinema possui uma continuidade desconstruída, uma linguagem de difícil compreensão para o código tradicional cinematográfico, por esse motivo seus filmes não obtiveram sucesso comercial, exceto na França onde um público sempre em busca de novidades o aclamou, a crítica italiana se divide entre os que o amam e os que o odeiam.  Muito contraditório Bene afirma que o cinema nasceu morto compreendido aquele de Lumiere e o resto, uma arte vulgar por conter códigos muito precisos e por isso o despreza, não obstante tenha feito muito bom uso desse veículo para se expressar.
Se alguém lê Ulisses, pode fechar o livro quando quiser, e isso é impossível fazer no cinema. Se levo o público aceitar certas coisas a nível racional, é uma desonestidade. Para mim, a comunicação é uma corrupção, e é só isso. Não quero que meus filmes comuniquem nada. (...) O cinema? É morto, eu digo há anos, por isso parei de fazê-lo (Carmelo Bene) (FALDINI&FOFI, 1984, p 379) Trad. do Autor.

Bene atuou nos filmes Edipo Re (1967); Creonte (1967), ambos de Pier Paolo Pasolini, Cineasta que admirava e considerava um amigo sincero e para Franco Indovina em Lo scatenato (1967), no papel de um padre. Dirige no cinema Nostra signora dei turchi (1968), com o qual vence o prêmio especial do Juri na Mostra de Veneza. Durante os anos de 1977 a 2002 dirige diversos filmes para TV, participa de diversos programas de entrevistas de maneira sempre contundente chegando a desafiar ao vivo telespectadores de forma inconveniente, inclusive personalidades das mais diversas, como ocorreu uma vez em uma discussão acalorada com o grande ator de cinema e teatro Vittorio Gassman, exibida ao vivo na TV. Bene sem dúvida foi um artista inovador e único no seu tempo, por vezes genial e sempre em busca de uma linguagem inexplorada e conceitual, seja no teatro como no cinema. Morre em Roma em 16 de março de 2002.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Paolo Cavara, um cineasta com um olhar no documentário e outro na ficção, experimentalismo puro

Anthony Quinn e Franco Nero em Los amigos, direção de Paolo Cavara
Paolo Cavara nasce em 4 de julho de 1926 em Bolonha, Itália. Diretor de fotografia, roteirista e diretor cinematográfico. Seu início no cinema se dá como diretor de fotografia em documentários, seu talento nessa profissão o leva a trabalhar com dois importantes diretores dos anos 50’, Franco Posperi e Gualtiero Jacopetti, para este último Cavara empunhou a câmera e foi autor de diversas sequências usadas nos documentários daquele diretor, porém não creditadas por Jacopetti. Nos anos seguintes, após muitos documentários realizados para si e para colegas ilustres, Cavara dirige seu primeiro longa-metragem “L'occhio selvaggio” - O Olho Selvagem (1967), uma ficção que a julgar pelo passado de Cavara mostra-se muito autobiográfico e autocrítico, sobretudo em relação ao próprio gênero documentário que até então vinha realizando, sobretudo, com Jacopetti. Num roteiro escrito a quatro mãos com Ugo Pirro, L'occhio selvaggio surpreende pela sua sinceridade sobre o meio ao qual estava inserido Cavara. Com esse filme debute, uma espécie de redenção, Cavara revela certos expedientes um tanto desonestos de autores que em busca do sucesso de uma boa história não são fiéis aos fatos, que muitas vezes vazios de significados precisam de um acontecimento inventado. Pela originalidade de sua denúncia e inovação de sua linguagem, Cavara ganha destaque na Itália e em outros países onde o filme é exibido. 
Com L'occhio selvaggio Cavara entra definitivamente no cinema de produção comercial logrando êxito tanto de público como de crítica devido ao seu exótico e inovador experimentalismo. Seus próximos filmes, embora aparentemente diversos, possuem características muito marcantes de estilo e linguagem, sendo eles La tarantola dal ventre nero = A tarântula do ventre negro (1971) e ...e tanta paura = ...e tanto medo (1976), este último um filme de vanguarda para o ano que foi feito e pouco compreendido pelo público. Público esse ainda muito impregnado de significantes de gêneros populares típicos do período, de produção massificada, estereotipada que preservava hábitos e comportamentos conservadores nos espectadores. E em meio a um contagiante gênero Spaghetti western que nascia e lotava salas de cinema por toda a Europa, Cavara dirige seu primeiro blockbuster, um western intitulado Los amigos - Rápidos, Brutos e Mortais (1973). No elenco estão duas grandes estrelas, Franco Nero e Anthony Quinn, dois monstros do cinema. Cavara seguindo os ditames de um cinema comercial o faz mais ao estilo hollywoodiano e o filme, embora se aproveite da ciranda de sucesso do spaghetti western, mantém-se dentro dos padrões do western dos anos 40’, 50’ de Ford, Walsh etc e sem novidades. 
Com “Il lumacone” (1974), Cavara explora o gênero comédia de costumes, mas com uma graciosa carga de erotismo, onde a sensualidade, o frescor e a juventude de Elisa (Agostina Belli) encantam e dificultam a aproximação do apaixonado Lumacone, o lento, vagaroso e tímido Ginetto (Ninetto Davolli), esperto para pequenos furtos, mas que caminha com a lentidão de um caramujo com as mulheres. Davolli é original e gracioso ao retratar a esperteza e a bondade do homem simples italiano em seu desejo sincero de se redimir de um passado comprometedor. O filme tem seu roteiro escrito por Ruggero Maccari, o grande comediante do jornal satírico Marc’ Aurelio. Cavara morreu em 7 de agosto de 1982 em Roma.

Luiz Chiozzotto

chiozzottoit@gmail.com
Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Nino Manfredi, diretor de três filmes, como ator colaborou imensamente com os melhores diretores italianos

Nino Manfredi em I soliti ignoti de Mario Monicelli
Nino Manfredi nasce em 22 de março de 1921 em Castro Dei Volsci, Lazio, Itália. Dublador, ator, roteirista, diretor cinematográfico. Manfredi é filho de camponeses, seu pai ao entrar na polícia é transferido para Roma com a família de maneira que Nino ainda garoto tem contato com a grande cidade e seus encantos. Sempre inquieto e questionador, mas profundamente voltado para a família, inscreve-se no curso de Direito para agradar aos pais, não obstante tenha declinado da profissão em detrimento ao mundo do espetáculo. Durante a guerra, em idade de se alistar foge com o irmão e se esconde nas montanhas até o conflito acabar, ao voltar a Roma dedica-se exclusivamente à carreira de ator inscrevendo-se na Accademia nazionale d'arte drammatica em Roma.  Sem dúvida um dos maiores artistas de seu tempo, ao lado de seus contemporâneos Alberto Sordi, Ugo Tognazzi, Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni seu conterrâneo. Manfredi circula com desenvoltura entre os diversos veículos de comunicação, seja teatro, rádio, TV, cinema, compreendendo as sutilezas e nuances de cada um, adaptando e criando improvisadamente gags que enriquecem a mensagem sem exagerar nos clichês ou forçar demais na interpretação. Manfredi torna-se em pouco tempo um dos mais conhecidos atores da Itália, e transportar toda essa riqueza de experimentação para o lado oposto da lente de uma câmera, na condição de diretor, é para ele mais um estimulo em sua carreira.

Havia recusado de tudo, e me vi outra vez voltado a ideia da direção por um problema pessoal. Fui educado num país católico, recebi uma educação católica que um dia considerei errada e que não queria dar aos meus filhos. Diante dessa crise religiosa e como não sabia o que dizer aos meus filhos, pensei em dar uma resposta autobiográfica, através de um filme. Per grazia ricevuta teve um enorme sucesso porque era um filme muito sincero, muito pessoal. (...) Dirijo um filme só quando sinto necessidade de me exprimir. (Nino Manfredi) (FALDINI&FOFI, 1984, p 196).

Eleonora Giorgi e Nino Manfdredi em Nudo di donna de Nino Manfredi



Manfredi é um artista completo que em nossa memória se constitui como um ser dificilmente destacado da imagem, particularmente àquela cinematográfica. Como uma espécie de Chaplin, Manfredi é possuidor de um carisma, de uma versatilidade para o improviso, de uma elasticidade corporal e uma mímica surpreendentes. É um talentoso interprete dotado de uma inteligência para viver personagens dos mais diversos e construir simulacros fazendo-os transparecer verossimilhança, mesmo quando carregados pelas dores de suas maiores vicissitudes. Improvisadamente passa a dirigir, seu debute como diretor se dá com um filme L'amore difficile - Amores Eróticos (1962), cujo trecho por ele dirigido é L'avventura di um soldato. No segundo filme por ele dirigido, um longa-metragem intitulado "Per grazia ricevuta" - Por uma Graça Recebida (1971), tendo no elenco ele próprio ao lado de Lionel Stander, Delia Boccardo; Manfredi vence o Prêmio Palma d'oro pela Melhor Obra Prima no Festival de Cannes e o Prêmio Nastro d'argento pelo Melhor argumento. "O maior sucesso de Manfredi é para grazia ricevuta de 1971, ingênuo, e um dos poucos filmes dirigidos por um cômico nos últimos trinta anos no qual é possível reconhecer a utilidade da concentração nos papeis que interpreta. (...) (BRUNETTA, 2009) Trad. do Autor. 

Nino Manfredi em Brutti, sporchi e cattivi de Ettore Scola

Na mesma década de 70’ Manfredi retorna a profissão de Ator para interpretar papeis memoráveis como o avarento caolho Giacinto Mazzatella no sublime filme de Ettore Scola: Brutti, sporchi e cattivi - Feios, Sujos E Malvados (1976). Como Diretor Manfredi dirige 3 filmes, mas indiretamente colabora com diversos diretores na direção, como ator atuou em aproximadamente 120 filmes. Saturnino Manfredi, seu nome de batismo, morre em Roma em 04 de junho de 2004.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Domenico Paolella, o diretor das comédias singelas e descompromissadas


Domenico Paolella nasce em 15 de outubro de 1915 em Foggia, Puglia, Itália. Roteirista, diretor cinematográfico. Inicia profissionalmente num set cinematográfico em pleno regime fascista, como assistente de direção para Carmine Gallone no colossal italiano Scipione l'africano (1937). Terminada a experiência no maior filme da década Paolella se insere na indústria cinematográfica fascista com sede em Cinecittà e dirige pela primeira vez Gli ultimi della strada (1940). O filme apesar de conter significação fascista é bastante documental restando como um testemunho do substrato social da época e insere no panorama cinematográfico fascista um cineasta que em muitos momentos não se deixou levar pelo sistema político do regime. Com a queda de Mussolini Paolella precisa se reinventar e adere rapidamente ao gênero popular de filme de batalhas romanas, piratas e capa espadas em geral.
A luta para fazer filmes populares sempre existiu, pelo menos da minha parte, por motivos de custo. (...) atores verdadeiros, externas, construções, técnicos. E nem sempre isso era possível, mas quando fora, os filmes caminharam, e o público não se sentia enganado (Domenico Paolella) (FALDINI&FOFI, 1984, p. 449). Trad. do Autor
Na intenção de se estabelecer e pôr em movimento um grupo de profissionais técnicos que o acompanhavam há anos, Paolella empreende em 1952 um seguimento popular denominado musicarello, um subgênero italiano novo o qual se resume em fazer filmes para publicidade de cantores de sucesso em um determinado momento, divulgar suas músicas e seus discos. O seu primeiro filme de uma série nesse gênero é Un ladro in paradiso (1952), tendo Nino Taranto como protagonista, famoso cantor italiano dos anos 50. Décadas depois quando Paolella já havia ressignificado o gênero o bastante, dirige “Gardenia, il giustiziere della mala” (1979), cujo protagonista é o cantor popular italiano Franco Galifano. A história discorre sobre um problema social que afeta profundamente a sociedade, o tráfico de drogas entorpecentes em casas noturnas. Gardenia (Franco Galifano) é proprietário de um night romano e não aceita o tráfico, motivo mais que suficiente para travar uma batalha com Salluzzo (Martin Balsam) o chefe do tráfico em Roma. Dentre os inúmeros filmes policiescos feitos na seara da moda do gênero, Gardenia se destaca também pela excepcional fotografia de Sergio Rubini que constrói uma particular atmosfera noir, sobretudo, nas cenas noturnas do night.
Acredito que possamos distinguir entre períodos 48’-55’ prevalece o gênero romano antigo; depois até 64’ o mitológico e o de piratas, depois de 65’ a 70 o western, e até 77 o policial. (...). Quando o filme é mitológico o herói está literalmente nu e combate contra os mitos tremendos daquele tempo e os de sempre, quer dizer, contra o poder. Depois esse herói transforma-se em pirata, época em que os piratas modernos se difundem. No western, ao contrário, o herói é amado, reage em legitima defesa, dispara bem no último momento, um segundo antes que dispare o inimigo (...) (Domenico Paolella) (FALDINI&FOFI, 1984, p 449). Trad. do Autor.

Voltando cronologicamente a sua produção cinematográfica encontramos o gênero comédia, particularmente uma bastante original: "Il coraggio" (1955), com Totò interpretando um viúvo que vive com sua imensa prole mais o seu avô, todos a reboque por onde quer que ele vá. Desesperado diante sua condição econômica precária decide dar fim a sua vida e se atira no rio Tibre. A partir daí o filme – lembrando que é uma comédia de Totò – toma outro rumo completamente inesperado. O sucesso da comicidade com Totò nesse filme rende a Paolella a possibilidade de dirigir um segundo filme com ele, intitulado "Destinazione Piovarolo" (1956). Sábado, 28 de outubro de 1922, o telégrafo da estação passa a mensagem que a Itália a partir deste dia vira fascista - Destinazione Piovarolo é uma Comédia irreverente que tem o Fascismo como pano de fundo – O novo governo instalado transfere Totò para a cidade longínqua, a fictícia Piovarolo, onde os dias passam lentamente e a maior parte do tempo chove. 

Após esses dois filmes com Totò a cinematografia de Paolella engata uma marcha lenta; o subgênero Musicarello está com seus dias contados e antes mesmo do seu declínio, na metade dos anos 60, Paolella se lança num outro gênero popular, a aventura. O filme é I pirati della costa - Os Piratas da Costa (1960), o melhor dessa série de filmes pouco representativos em sua carreira, cujos títulos burlescos anunciam conteúdos afins, quase sempre previsíveis, alguns deles geniais, lugar certo de inspiração para cineastas deste século. Domenico Paolella morre em 7 de outubro de 2002 em Roma.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Riccardo Freda, o maior e mais criativo cineasta no gênero aventura dos anos de ouro de Cinecittà


Il cavaliere misterioso - Vittorio Gassman e María Mercader

Seu debute como cineasta é na direção de Don Cesare di Bazan (1942), um filme de aventura muito avante no tempo, uma verdadeira obra de arte partindo de um iniciante, cuja trama é escrita por ele junto de Rossellini, De Sica, Amidei e Zavattini, respectivamente autores neorrealistas. Freda, no entanto, atacaria acidamente anos depois o neorrealismo, principalmente quando a crítica e os intelectuais não reconheceriam seu esforço em fazer valer o seu gênero predileto, que era aquele da aventura ao estilo hollywoodiano. Mas a partir da queda do regime as coisas não seriam fáceis para o prodigioso Freda, com a queda da ditadura de Mussolini ele fica estigmatizado ao regime e é preciso um tempo para se adequar aos novos ares de liberdade e justiça que se respirava na península. Nesse período Freda se transfere ao Brasil a convite do governo do país para dirigir Guarany, um filme sobre um personagem indígena, mito nacional, nascido do romance do escritor brasileiro José de Alencar e com roteiro de Goffredo D’Andrea. O filme de Freda é finalizado em poucas semanas e faz enorme sucesso e lhe dá prestigio no meio cinematográfico brasileiro, ele recebe um dos maiores cachês do governo pelo seu trabalho. Anos depois reconhece em entrevista que foi a maior soma em dinheiro já recebida por dirigir um filme em toda a sua vida. É convidado para se estabelecer no Rio de Janeiro para fazer mais filmes, mas declina ao convite devido à recusa da esposa, a época Gianna Maria Canale, em viver no Brasil. Mas passados alguns anos Guarany se perde não restando cópia alguma do filme - até onde se sabe - em 1996, a atriz e diretora Norma Bengell recoloca em cena este épico tupiniquim que sempre incomoda certa ala direitista nacional por colocar o índio como herói nacional.
Com a soma que Freda ganha com o filme ítalo-brasileiro, ao retornar à Itália pode dar-se ao luxo de financiar seu retorno ao cinema, espera a melhor oportunidade para filmar uma aventura a seu gosto, que acontece com "Il Cavaliere misterioso" (1948), estrelado por Vittorio Gassman em um de seus primeiros papéis como protagonista no cinema, até então escalado para papéis de vilão.
Riccardo Freda nasce em 24 de fevereiro de 1909, em Alexandria, Egito. Roteirista, diretor cinematográfico. É filho de pais napolitanos, vive a tenra infância junto de outros nove irmãos no Egito, onde seu pai se transfere para trabalhar no mercado financeiro. A amizade com sheiks árabes atrai fortunas e seu pai torna-se um rico proprietário de banco naquele país. Mas o destino faria com que não permanecessem juntos; o banco além de financiar a revolução árabe atrai lindas mulheres e assim, por conta de uma amante, seu pai transfere toda a família a Milão para viver seu romance árabe. Para a sorte de Riccardo, não obstante o desfortúnio de sua mãe, agora ele pode ir todos os dias ao cinema. E é em companhia de sua mãe que assiste aos mais significativos filmes dessa época. Sua predileção são aqueles de aventura de Douglas Fairbanks; Rodolfo Valentino; clássicos do cinema mudo que influenciarão sua escolha de gênero cinematográfico como cineasta, bem como sua linguagem que aproveita dos gestos em detrimento a palavras para definir uma ação, estratégia rara hoje em dia e muito pouco usada pelos novos representantes do cinema sonoro da época.
De família muito rica, Riccardo pode se dedicar ao hobby de escultor enquanto cursa Arquitetura e Artes na Universidade de Milão. Entretanto, sua escolha pela carreira de cineasta desagrada profundamente a família e torna-se o único filho tripudiado entre seus irmãos. Mas o pai morre jovem, aos 52 anos, e Freda passa a decidir o seu destino tornando-se no decurso dos anos um monumento do cinema italiano, uma das colunas da sétima arte na Itália.
A base da nova cinematografia nacional italiana, aquela que seria considerada estratégica nos anos bélicos fascistas por Mussolini passará pelas mãos de Freda. Seus primeiros trabalhos são como Crítico de Arte para o jornal "Il popolo di Lombardia" e como Supervisor de produção cinematográfica para a "Elica Film" e "Tirrenia Film". Em 1933 vai para capital estudar Direção cinematográfica no Centro Sperimentale di Cinematografia, que fica bem perto da recém inaugurada Cinecittà, o maior estúdio de cinema da Europa. Nesse ambiente é descoberto por Produtores e Cineastas da época, como Gennaro Righelli, Giacomo Gentilomo, Goffredo Alessandrini e Raffaele Matarazzo, para quem passa a escrever roteiros. Conjuntamente, o seu trabalho burocrático no departamento de censura abre caminho para assistir filmes que eram sucessos de bilheteria na América, mas proibidos durante o regime, clássicos que só seriam vistos pelo público italiano após a queda do fascismo. Essa experiência sensorial servirá de fonte de inspiração para os filmes que ele dirigiria após a guerra.



A criatividade e engenhosidade de Freda sempre estiveram ao seu favor possibilitando realizar com poucos recursos, filmes e efeitos especiais surpreendentes, principalmente a partir de sua parceria com Mario Bava na iluminação de cena e na direção de fotografia. Os filmes de Freda representavam entretenimento certo, equivalente hoje em dia em estilo e diversão aos filmes de Spielberg, considerando as devidas proporções e os recursos técnicos disponíveis a época. Até mesmo seu nome nos créditos ele costumava alterar para dar a impressão de se tratar de filme estrangeiro; usava pseudônimos como Richard Freda, Robert Hampton, Robert Davidson, George Lincoln, Dick Jordan, Willy Pareto; prática que se tornaria usual por outros cineastas italianos a partir de então, visando aumentar a bilheteria para filmes italianos fazendo-se passar por staf norte-americano. Os trabalhos de Freda só não foram à frente nos anos 1950/70, pois ele atuou numa época em que o cinema italiano era referência mundial pelo movimento neorrealista. E para Freda o cinema não é retratar o sofrimento dos desvalidos do pós-guerra, é, sobretudo, ação, tensão e velocidade, puro entretenimento. As histórias que conta em seus filmes possuem uma atmosfera que lembram os filmes mudos que assistiu ao lado da mãe na infância, enredos que não nascem da crônica diária, senão de referencias ao “herói mito”, distante do homem comum, vitima das adversidades da guerra, da pobreza e da marginalidade social, retratados no neorrealismo pelos seus mais fieis representantes.
Freda dirigiu com relativa constância filmes que vão da fantasia do gênero aventura, horror, batalhas romanas ao realismo da literatura, clássicos inesquecíveis como “Aquila nera” (1946), de um conto de Puskin; “I miserabili” (1948), de Vitor Hugo; Romeo e Giulietta (1964), de Willian Shakespeare. O seu filme Spartaco (1953), com Masimo Girotti no papel de Spartacus, de fundo socialista é tão bem construído que os direitos são adquiridos pela Bryna Productions como base para Kirk Douglas desempenhar seu papel de Spartacus no filme homônimo dirigido por Stanley Kubrick em 1969. Seus filmes ao estilo melodrama de espionagem, western e, sobretudo, de horror tornaram-se verdadeiros cult-movies, e são vistos e revistos por uma quantidade de fãs sempre maior a cada nova geração. Procure no Youtube por Riccardo Freda e se surpreenda com o puro cinema de uma época.
Riccardo Freda morre em 20 de dezembro de 1999 em Roma.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Adolfo Celi, o ator diretor de múltiplas faces e surpreendentes histórias


Adolfo Celi em Thundeball
Adolfo Celi nasce em Messina, Sicília, Itália em 27 de julho de 1922. Ator, roteirista e diretor cinematográfico. Estudou na Academia Nacional de Arte Dramática de Roma e antes de se tornar diretor interpreta diferentes personagens como ator em mais de 100 filmes, iniciando no cinema em Un americano in vacanza - Um Ianque na Itália (1946) e em Anni difficili = Anos difíceis (1948), ambos de Luigi Zampa. 
Em 1948 muda-se para o Brasil para trabalhar no TBC - Teatro Brasileiro de Comédia fazendo sua estreia com a peça Nick – Bar, seus primeiros passos a caminho da direção de cinema. Após dois anos dirigindo peças no TBC surge a oportunidade no cinema paulista como diretor ao lado de Tom Payne e John Waterhouse no filme Caiçara (1950), com Eliane Lage, Abilio Pereira de Almeida e Carlos Vergueiro. O filme é produzido pela produtora de cinema Vera Cruz para quem Celi fará outros trabalhos no Brasil. 


Em 1952 casa-se com a atriz Tonia Carreiro que dirige em Tico-Tico no Fubá, seu segundo filme, uma comédia de costumes cujo protagonista é Anselmo Duarte. Duarte é o único cineasta brasileiro a vencer a Palma de Ouro e o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes com o filme O Pagador de Promessas (1961). Adolfo Celi ainda dirige diferentes episódios de mini séries na TV Tupi em São Paulo antes de voltar definitivamente para a Itália.  L'alibi (1969), uma comédia com Vittorio Gassman, Grande Otelo, Luciano Lucignani e ele mesmo; com música de Ennio Morricone e Sergio Endrigo é a sua última experiência como diretor cinematográfico. 

Claudia Cardinale e Adolfo Celi em Libera, amore mio! de Mauro Bolognioni
A partir da década de 70’ se dedica exclusivamente a carreira de ator, interpretando inúmeros papéis marcantes na cinematografia mundial, dentre eles o vilão de James Bond em Thunderball, - 007 Contra a Chantagem Atômica (1965), de Terence Young e o Professor Sassaroli em Amici Miei 1975, de Mario Monicelli. Celi morre em 19 de fevereiro de 1986 em Siena, Toscana, Itália.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Eugenio Cappuccio, o cineasta que filma com uma máquina fotográfica Canon 7D.


Eugenio Cappuccio nasceu em 1961, em Latina, Itália. Fotógrafo, ator, roteirista e diretor cinematográfico. Foi um privilegiado de sua geração ao ser assistente de direção de Federico Fellini em “Ginger e Fred” (1986), apenas um ano depois de se formar no “CSC - Centro Sperimentale di Cinematografia”.  Debuta no Cinema ao lado dos colegas Massimo Gaudioso e Fabio Nunziata, dividindo com eles a direção e o roteiro, o filme chama-se “Il caricatore” (1995), apresentado primeiro na versão curta metragem e um ano depois na versão longa metragem. O Cinema para Cappuccio é um processo constante de pesquisa onde o roteiro está aberto a transformações, e a idéia inicial dificilmente permanece, geralmente muda ou morre, permitindo ressurgir algo diverso, e isso não só a partir da transformação do roteiro, do argumento, mas também a partir da interação do diretor que está suscetível ao acaso, a possibilidade de experimentação, ao improviso, as circunstâncias e a diversidade de pensamentos, restando à edição o momento em que Cappuccio introduz a “alma” no filme. Nesse seu processo criativo Cappuccio considera o ator o motor do filme cabendo ao diretor provocar-lhe, promover uma interação de acordo com a sensibilidade, contingência e o lugar em que a história está acontecendo, sugerir-lhe e descobrir junto com ele o caminho. Em 2011 Cappuccio promove também uma importante mudança técnica na forma do filme surpreendendo a indústria cinematográfica ao realizar um filme inteiro, todo com uma máquina fotográfica Canon 7D. O filme “Se sei così ti dico si” (2011), uma comédia inteligente e bem feita, com Emilio Solfrizzi, Belén Rodríguez, Fabrizio Buompastore no elenco é o primeiro filme da história do Cinema italiano a ser feito através de uma câmera fotográfica digital. Cappuccio vislumbra como um bruxo o futuro do Cinema apostando em uma tecnologia que muito em breve permitirá que muitos se manifestem profissionalmente mesmo que destacados do Cinema corporativo. Seus últimos trabalhos tem sido para a TV italiana.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.