quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Franco Rossi, dirigiu talvez o melhor filme da dupla Bud Spercer e Terence Hill.

Bud Spencer e Terence Hill
Franco Rossi nasce em 28 de abril de 1919, em Florença, Toscana, Itália. É um dos cineastas mais inteligentes e com obras autorais de maior significado para a cinematografia na história do cinema italiano. Inicia pelas mãos de Vergano, Camerini, Castellani, para quem foi assistente de direção. Seu debute na direção ocorre em Solo per te Lucia (1952), mas será Il sedutore (1954), o seu melhor filme dessa década; divertido, romântico, ao estilo “comédia de casais que não vão bem na relação”. O filme é ainda uma das melhores interpretações da primeira fase da carreira de Alberto Sordi ambientado em Roma, a cidade natal de Sordi. No início da década de sessenta, agora sob influência do ritmo da vida romana e na eminência de dirigir Smog um de seus mais autobiográficos trabalhos, Rossi revela:
Eu não sou de Roma, mas de Roma eu gosto de tudo, méritos e defeitos, vícios e virtudes. Pertenço à geração daqueles provincianos que, subitamente se veem vivendo na capital pouco depois da guerra, enamoram-se imediatamente dos sorrisos das mulheres e da tranquila arrogância dos homens. (...) (Franco Rossi) (FALDINI&FOFI, 1984, p. 427) Trad. Autor.


Sob essa visão da cidade eterna nasce “Smog” (1962), uma espécie de Dolce vita ao contrário, no qual Rossi investiga italianos que vivem em Hollywood submetendo-se a uma vida materialista, privada de valores humanos e trabalhando como serviçais de americanos ricos e de vida fútil. Esse pequeno mundo ilusório é questionado pelo advogado materialista Vittorio Ciocchetti interpretado com primazia por Enrico Maria Salerno. O filme conta com um roteiro inteligente e diálogos muito bem construídos por um grupo seleto de talentos como Franco Brusati, Pasquale Festa Campanile, além de interpretações surpreendentes de Annie Girardot e Renato Salvatori, que na época eram casados. O outro grande filme autoral de Rossi é o anterior a Smog, cujo ator Enrico Maria Salerno também interpreta uma espécie de antropólogo e se chama Odissea nuda (1961), ambientado no Taiti e na Polinésia francesa. Os dois filmes juntos representam grandes momentos de sua carreira, duas verdadeiras obras de arte da cinematografia mundial. Mas de repente desvia o foco para produções comerciais e é seduzido pela TV. Faz inúmeros filmes comerciais, e pequenas participações em curtas metragens ao lado de outros diretores sobrando pouco de sua marca, cujo ritmo dinâmico e reflexivo permanecem como única coisa boa de seu estilo. Em 1968 Rossi está definitivamente trabalhando como empregado na RAI, sendo responsável pelo primeiro projeto de mini série levado ao ar pela emissora, Odissea. Dirige todos os oito episódios que inauguram um seguimento televisivo que fará tremendo sucesso na TV. Na década de 70’, quando sua carreira parece estagnar-se ele dirige outra vez para a tela grande Porgi l'altra guancia - Dois Missionários do Barulho (1974), curiosamente o melhor filme da dupla Bud Spercer e Terence Hill e exibido pela RAI na abertura da celebração à Bud Spencer na ocasião de sua morte em 2016. Rossi morre em 05 de junho de 2000, em Roma.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Carlo Di Palma, o cineasta que dá forma à atmosfera europeia no cinema

Monica Vitti e  Richard Harris em Il deserto rosso (1964)

Carlo Di Palma nasce em 17 de abril de 1925, em Roma, Itália. Diretor de fotografia, operador de câmera, diretor cinematográfico. Dentre as funções que atua no cinema a mais celebre de todas é a de diretor de fotografia; o legado de sua arte emociona gerações pela beleza de sua fotografia tanto em preto e branco como colorida, um lenimento aos olhos. Em Romanzo di un giovane povero (1942), de Guido Brignone já é possível ler o seu nome nos créditos, depois em em Obssessão (1943) de Visconti. Di Palma é requisitado por diretores italianos, franceses, hungaros e na década de 80’ atravessa o atlântico e confirma sua marca registrada nos filmes de outros colegas; no do americano Wood Allen em Hannah e Suas Irmãs (1983), e no do brasileiro Bruno Barreto em Gabriela (1983). Di Palma também estudou na prestigiosa escola romana de cinema, a CSC. A partir dos anos 60’ sua fotografia é responsável pela beleza de importantes filmes como L'assassino (1961) de Petri. Os primeiros experimentos em colorido de Antonioni em Il deserto rosso (1964), cuja fotografia riqueza cromática de tons complementa parte importante da psicologia da personagem de Monica Vitti na história. Ainda com Antonioni dirige Blow-up (1966), cuja iluminação Di Palma surpreende com o que há de mais inovador para a época, a ponto de Stanley Kubrick, que no mesmo período filmava 2001 Odisséia no Espaço (1968), fizesse uso de seu estilo em uma cena desse seu clássico de ficção cientifica e convidando Di Palma para dirigir a fotografia. Ainda na década de 60’ dirige a fotografia para filmes de Risi, Monicelli, Bertolucci, Zampa, só para citar alguns. Em 1970 passa a ocupar a cadeira de diretor, dirige três comédias apenas em toda sua carreira, todos com sua esposa Monica Vitti como protagonista: Teresa la ladra = Teresa a ladra (1973), Qui comincia l'avventura = Aqui Começa a Aventura (1975), Mimì Bluette... fiore del mio giardino = Mimì Bluette... flor do meu jardim (1976), filmes que gozam de boa receptividade, principalmente o elogiado Teresa la ladra. Em 1983, já muito reconhecido internacionalmente registra sua magnífica fotografia em filmes de Allen, um período que pode se dizer ser o do encontro de dois gênios da cinematografia mundial, quando juntos recriam a atmosfera europeia na América, tanto valorizada por Allen e recriada para os seus filmes graças a Di Palma. São desse período algumas joias de celuloide, como Hannah e Suas Irmãs (1983), A Era do Rádio (1987), Setembro (1987), Simplesmente Alice (1990), Maridos e Esposas (1992) e Desconstruindo Harry (1997), num total de 14 anos de um criativo e prospero relacionamento. Carlo Di Palma morre em 9 de julho de 2004 em Roma, Itália.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Antonio Margheriti, o cineasta que trouxe a perfeição artesanal ao gênero ficção espacial

              Barbara Steele em I lunghi capelli della morte

No final da década de 60, o grande cineasta Stanley Kubrick lança seu surpreendente “2001, uma odisseia no espaço”, solidificando um gênero que até então era feito nos bastidores de Hollywood, denominado Ficção espacial, encontrando espaços em filmes B. Mas antes, oito anos antes desse feito de sucesso Kubrickiano, Antonio Margheriti já fazia experimentos imagéticos profundos na tentativa de retratar a vida humana conquistando o espaço sideral, com objetos simples e o correto uso da iluminação produzindo imagens espetaculares a um custo muito baixo. Antonio Margheriti nasce em 19 de setembro de 1930 em Roma, Lazio, Itália. Roteirista, diretor cinematográfico. Margheriti é um leitor apaixonado por gibis de flash Gordon e Mandrake, de onde eduz inspiração para criar a atmosfera de seus filmes de espaço sideral, inicialmente em curtas-metragens. Com os anos Margheriti se especializa no gênero Ficção cientifica espacial, uma novidade na cinematografia italiana. Ele faz isso oito anos antes de Stanley Kubrick realizar 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). Após mostrar seu talento em curtas-metragens e realizar com destreza efeitos especiais com materiais simples, dirige seu primeiro longa-metragem espacial, e o primeiro do gênero na Itália - considerando naves entorno do planeta terra, homens no espaço fora da gravidade. 

                                        

O filme chama-se Space Men (1960), e conta com efeitos especiais artesanais e muita similaridade com o mundo real, confeccionados por Margheriti. Sua técnica e destreza no trato com a luz mostra a capacidade inventiva de Margheriti em fazer um filme com qualidade estética surpreendente para a época e com um baixíssimo orçamento.  Ao mesmo tempo Margheriti cria um público italiano para um gênero, cujo maior realizador nesse seguimento era Hollywood, mas a custos astronômicos. Margheriti não fica estagnado no gênero que ele dá vida na Itália, envereda por outros como o Horror, a Aventura e a Ação, dirigindo regularmente filmes durante toda a década de 60’. Em I lunghi capelli della morte - A Máscara do Demônio (1964), a protagonista é Barbara Steele que com seu rosto e olhos exóticos tornam o filme um sucesso sedimentando o trabalho de Margheriti nesse seguimento conhecido internacionalmente. Na quase totalidade de seus filmes, mais de cinquenta durante quase três décadas, ele usa o pseudônimo de Anthony M. Dawson. 

Space Men (1960) de Antonio Margheriti.

Em virtude de sua capacidade inventiva Margheriti é convidado a realizar o maior projeto da RAI intitulado L'isola Del tesoro (1987), um antigo projeto do colega Renato Castellani que em decorrência de sua morte não consegue realizar. Nas mãos de Antonio Margueritti que segue fielmente as exigências de Castellani, o filme entra para a história da RAI como o maior e mais caro projeto produzido, considerando não só o mercado televisivo como aquele cinematográfico, conquistando uma das maiores audiências da TV estatal italiana. Antonio Margheriti morre em Monterosi, Lazio, Itália em 4 de novembro de 2002, seu filho Edoardo Margheriti é Produtor e diretor de efeitos especiais.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Carmine Gallone, o cineasta do mais grandioso filme da década de 30’

Carmine Gallone nasce em Taggia, Ligúria, Itália como Carmelo Camillo em 10 de setembro de 1885. Roteirista, produtor e diretor cinematográfico. Gallone dirige filmes na Itália, Alemanha, Áustria, Inglaterra, e França, neste último país René Clair era o diretor mais influente sendo possível ver traços dele nas obras de Gallone do periodo. Gallone faz também nessa mesma época vários filmes roteirizados por Henri-Georges Clouzot. A partir de 1935, retorna à Itália após um período na Alemanha em decorrência de uma forte crise que se abateu no cinema italiano e dirige o filme Casta diva - Um Grande Amor de Bellini (1935). Essa biografia musical da vida do Cantor Lírico italiano Vincenzo Bellini faz enorme sucesso de público e crítica e torna-se um embrião da sua ideia de levar a Opera para o Cinema. Gallone pertence a uma época em que o cinema italiano queria despertar os grandes césares do império romano, talvez pela influência do fascismo, talvez pela ideia de grandeza de alguns produtores e diretores, certo é que Gallone chegou perto do Olimpo com o seu épico "Scipione l'africano" Scipião, O Africano (1937), o mais grandioso filme da década de 30’, com elefantes e outros animais de verdade usados nas batalhas, além de mais de 6000 figurantes. O filme foi concluido no mesmo ano de inauguração de Cinecittà, o maior estudio cinematográfico da Europa. Interessante que em meio a tantos filmes de valor de Gallone lamentavelmente ele é quase sempre lembrado por Scipione l'africano, realizado em pleno auge do regime fascista e inclusive vencedor do Prêmio Mussolini de Melhor filme no Festival de Veneza de 1937. Outra curiosidade sobre o filme é que Alberto Sordi com apenas 17 anos de idade interpreta um soldado nesse magnífico de proporções gigantescas. Em 1938 Gallone põe em moto sua ideia das Operas líricas filmando Giuseppe Verdi, no decurso dos anos serão aproximadamente 25 filmes nesse gênero. Uma ideia de sucesso uma vez que permite aos frequentadores de salas de cinema conhecer a Opera e os grandes cantores ao custo de um ingresso de cinema. Dentre esses músicos estão Mozart no filme Melodie eterne, 1940; Puccini, 1953 e também filmes de óperas canônicos como Manon Lescaut de 1940; Il Trovatore de 1949, e Madame Butterfly de 1954. Por fim com Carmen di Trastevere (1962), Gallone encerra sua trajetória como Diretor de cinema. Gallone viveu várias épocas do cinema italiano, inicia no cinema mudo, dirige mais de 130 filmes na Itália e no exterior tendo conseguido se reinventar em diversos períodos, viveu a passagem do mudo para o sonoro sem perder a qualidade em seus filmes e consegue adaptar seu gosto pelas Operas à linguagem do cinema. Carmine Gallone morre em Roma em 11 março de 1973.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Renato Castellani, o criador do subgênero neorrealismo rosa


Vincenzo Musolin e Maria Fiore em Due soldi di speranza de Renato Castelanni
Renato Castellani nasce em Varigotti di Finale, Liguria, Itália em 4 de setembro de 1913. Roteirista e diretor cinematográfico. Castellani se forma em arquitetura pela Universidade de Milão, contemporaneamente trabalha para a Cineguf Lombarda, ao final da láurea decide continuar com cinema e abandonar a arquitetura. Castellani segue então para Roma e aporta em Cinecittà, a cidade do cinema, lá faz alguns roteiros para Mario Soldati e Alessandro Blasetti. Ao mesmo tempo consegue trabalho como assistente de Mario Camerini, o grande diretor de cinema italiano da época, no filme Il grande appello (1936) e em outros do mesmo diretor. O trabalho com Camerini e também para Alessandro Blasetti o prepara para escrever sob os códigos cinematográficos do cinema italiano, e a partir de um conto de Alexander Puskin elabora o roteiro de seu primeiro filme como diretor. Chama-se Un colpo di pistola (1942), e tem a colaboração de Mario Bonfantini, Corrado Pavolini e Mario Soldati, um filme com uma composição e inspiração em elementos pictóricos, experiência mimética ainda pouco explorada na época que são enriquecidas por movimentos de câmera constantes que surpreendem. Tais características de filmagem iriam se tornar um estilo de Castellani em seus próximos filmes, assim como o seu perfeccionismo, até mesmo pelas trilhas sonoras, especialmente criadas para os seus filmes. Sua cinematografia é composta de vários momentos aparentemente contraditórios em função dos diferentes temas que aborda, contudo, a pesquisa é sempre presente e com o propósito de inovar abrindo-lhe novos caminhos, novas linguagens no meio cinematográfico. Um bom exemplo é a sua tentativa de alinhar-se ao movimento neorrealista iniciado pelo contemporâneo Roberto Rossellini levando-o a criar o subgênero neorrealismo rosa, o qual ganhou inúmeros seguidores nos jovens diretores da época. Castellani é um diretor que contribuiu enormemente para consolidar o “cinema pesquisa italiano” símbolo pelo qual é conhecido mundialmente e um dos maiores diferenciais da produção italiana em comparação a visão capitalista da industria de Hollywood, onde nem sempre a inovação era bem-vinda na sua rede produtiva cinematográfica. A cinematografia de Castellani contêm a essência da experimentação, como pode ser observado nos filmes Sotto il sole di Roma – Sob o sol de Roma (1948), Due soldi di speranza - Dois Vinténs de Esperança (1952), I sogni nel cassetto - No Limiar da Realidade (1957), Nella città l'inferno, Inferno na Cidade (1959) e em Una breve stagione - Um Verão com Você (1969). A partir de 1970 Castellani migra para a TV italiana onde continua a explorar novas linguagens nesse veículo que se consolidava nessa década na Itália. Castellani morre em Roma em 28 de setembro de 1985, sua cinematografia é injustamente esquecida e lamentavelmente muito pouco visitada.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com Texto ensaio do livro

"Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Mario Bava, o gênio das sombras e da luz nos filmes de terror

Ivo Garrani e Barbara Steele em La maschera del demonio
  Mario Bava nasce em Sanremo, Itália, dia 31 de julho de 1914. Operador de câmera, diretor de fotografia, roteirista e diretor cinematográfico. Os primeiros passos de Mario Bava no cinema são dados no Instituto Luce nos anos 30’, onde é encarregado de encontrar títulos para filmes estrangeiros em língua italiana. Ainda no final dessa década estreia na direção de fotografia de dois curtas-metragens do colega Roberto Rossellini (1906 – 1977), Il tacchino prepotente e La vispa Teresa, ambos de 1939, de Rossellini. Como diretor de fotografia trabalha ainda para diversos cineastas como Riccardo Fredda, Mario Soldati, Luciano Emmer, Bruno Vailati, Steno, Raoul Walsh e Jacques Tourneur, que o consideravam genial na técnica cinematográfica de trabalhar a luz e as sombras no preto e branco. Todo esse conhecimento construído observando e experimentando resvala no custo do efeito especial dos filmes dessa época, surpreendentemente econômico se comparado a semelhantes produções alemãs e de Hollywood da mesma época. Seu pai, Eugenio Bava, é a sua primeira e grande fonte de inspiração, uma forte referência na composição estética imagética, o qual durante a infância e adolescência mirou os passos. Seu pai Eugenio desempenhara diversas funções dentro da arte criando e transformando a imagem, seja como escultor de santos para igrejas; cenógrafo da famosa produtora francesa Pathé, operador de tele câmera, diretor de fotografia; seja como diretor do departamento de maquiagem no Instituto Luce na década de 30’. Dentre os filmes que Eugenio Bava assinou a fotografia encontram-se joias do cinema mudo como Quo vadis? (1912), Cabiria (1914).  Essa influência deixada pelo pai, dessa arte de copiar a vida dando-lhe um novo significado, influenciou sobremaneira o jovem Mario Bava que adentra no mundo da imagem pelas mãos dele, podendo dizer-se até que o superou. 


  Sua estreia na direção deu-se em 1960 com o gótico filme La maschera Del demônio, um filme com uma estética visual nunca antes vista no cinema, um filme no gênero terror. Com esse clássico do terror italiano, Bava da noite para o dia torna-se objeto de culto, sendo reverenciado pela crítica francesa nas páginas do Cahiers Du cinéma e outras prestigiadas revistas do gênero. Após esse sucesso praticamente toda a década de sessenta foi sua, seus filmes marcaram a memória e fizeram a história do cinema com joias como: Ercole al centro della Terra (1961), La ragazza che sapeva troppo (1963), La frusta e il corpo (1963), I tre volti della paura (1963), Sei donne per l'assassino (1964), Operazione paura (1966) etc. Bava manipula com maestria a luz compondo verdadeiras obras de arte imortalizadas em filmes dos mais diversos gêneros, circulando seguro e tranquilo pelos gêneros mais populares como o western, policial, capa espada, fantasia, épico, erótico, thriller e horror, tudo isso sempre dentro da Itália, expressando-se, porém, com mais afeição e afinidade no gênero thriller e horror, nos quais foi pioneiro na península. Nos seus anos de glória a crítica italiana não o considerava relevante, entretanto, na distância dos anos jovens talentos de todo o mundo passam a reverenciar seus métodos de trabalho e cineastas da envergadura de Argento, Burton, Coppola, Scorsese, Dante, Corman, Landis, Tarantino, se inspiraram em suas obras.
“Era um grande do cinema, considerado não só por mim, mas em todos os países sérios, como E.U.A, Inglaterra, e a França. (...) A morte de Bava e aquela de Hitchcock nos deixaram um vazio  intransponível para quem considera o cinematógrafo fantasia, evasão da realidade e não simples reproduções de vivências cotidianas.” (Riccardo Freda) (FADINI& FOFI, 1984, p 443) Trad. do Autor.

  E se durante sua vida fora ignorado pela Crítica italiana, aquela francesa sempre o teve bem em foco, e hoje com toda a computação gráfica e efeitos especiais disponíveis, seus filmes resistiram ao tempo, servindo de fonte de inspiração para uma sempre nova geração de cinéfilos e jovens cineastas. Mario Bava morre em Roma em 26 de abril de 1980, seu filho Lamberto Bava também é Diretor.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Tonino Valerii, o cineasta que inovou o gênero velho oeste

Terence Hill em Il mio nome è nessuno.

   O gênero western na Itália frutificou num terreno seco de criatividade, quando Fellini, Antonioni e outros cineastas estavam já há bastante tempo sem produzir. Havia uma grande crise no cinema italiano; muitos profissionais do cinema: fotógrafos, cenógrafos, eletricistas etc., estavam procurando outras atividades fora de Cinecittà, quando então veio uma tempestade chamada spaghetti western e o maior fúlmen desse período foi Sergio Leone e os seu discipulo mais empenhado e produtivo do ponto de vista da inventividade no gênero, foi Tonino Valerii. Tonino Valerii nasce em 20 de maio de 1934, em Teramo, Abruzzo, Itália. Assistente de direção, roteirista e diretor cinematográfico. Uma curiosidade de seu sobrenome ter dois “i’s” remonta ao passado francês de sua família; seu bisavô era um capitão do exercito francês que vem à Itália para combater em uma guerra e não retorna mais à França, cujo sobrenome Valeri vem alterado pelo avô que não gostava da identidade estrangeira e acrescenta um “i” a mais para diferenciar-se. Valerii é um artista do cinema italiano que se destaca no gênero spaghetti-western, onde é criativo, inventivo, inteligente e também inovador da técnica cinematográfica desse aclamado gênero. Antes de ingressar na profissão formou-se no Centro Sperimentale di cinematografia como diretor e roteirista, torna-se conhecido já no seu primeiro trabalho devido à popularidade do cantor italiano Domenico Modugno para o qual realiza Tutto è musica (1961), Valerii dirige e escreve a história do cantor. Ainda na fase de experiência trabalha como assistente de direção para Camillo Mastrocinque em La cripta e l’incubo - O Túmulo do Horror (1964), cujo roteiro e história Valerii escreve junto de Ernesto Gastaldi. A repercussão positiva desses dois trabalhos serve de vitrine a Valerii que durante a realização do clássico Per un pugno di dollari - Por Um Punhado de Dólares (1964) é convidado por Leone para ser seu assistente de direção, onde acaba também por dirigir a segunda unidade do filme, todavia, seu nome não vem creditado junto de outros que atuaram no mesmo departamento. Já em Per qualche dollaro in più - Por uns Dólares a Mais (1965), o segundo da trilogia do dólar, também de Leone, seu nome já aparece como assistente de direção nos créditos além de naquele de diretor de segunda unidade, motivo suficiente para ele se tornar uma estrela da noite para o dia. 
Il mio nome è Nessuno - Terence Hill e Henry Fonda (1973)
   Os filmes de Tonino Valerii tem uma marca própria, possuem uma carga psicológica que se sobrepõe a técnica propriamente dita ao dar ênfase a uma tonalidade violenta aos seus personagens, que se colocam quase sempre em oposição às regras de comportamento socialmente estabelecidas, como é possível notar em Per il gusto di uccidere - Pelo Prazer de Matar (1966), filme debute de Valerii como diretor. Em Il mio nome é nessuno – O meu nome é ninguém, filme idealizado e produzido por Leone, a história é construída sob os cânones clássicos do mito. A primeira aparição do anti-herói de nome Ninguém (Terence Hill) é uma cena em que ele emerge das águas de um rio, uma metáfora do nascimento segundo Leone. O filme com uma carga de humor inusitada para um western é a terceira maior bilheteria do ano de seu lançamento e consagra Tonino Valerii como um grande diretor. Durante os anos 2000 Valerii ministra cursos de cinema nos E.U.A, onde possui uma legião de fãs, dentre eles Quentin Tarantino que usa em Kill Bill vol. 2 uma música de Riz Ortolani do filme I giorni dell'ira - Dias de Ira (1967) de Tonino Valerii, bem como repete a violência cínica e niilista típica das personagens de Valerii. O livro Manual de Assistente de direção escrito por Valerii é de grande valor aos jovens iniciantes na carreira de cineasta, onde ele além de apresentar a sua técnica também conta sua experiência no set com grandes cineastas como Mastrocinque, Leone etc. É também de Valerii a iniciativa de criar o prêmio de fotografia de Venanzo e o festival de resenhas Roseto opera prima, dedicada a incentivar os jovens cineastas estreantes. Tonino Valerii morre em 13 de outubro de 2016 em Teramo, Abruzzo, Itália.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Guido Zurli, um cineasta que transforma épicos e thrillers em comédias trucidas



Houve uma época em Cinecittà que personagens vestidos de capa, espada e sandálias; turbantes e shakes circulavam tranquilamente entre as pessoas nos cafés, dirigiam cinquecentos e motorinos, desde romanos antigos da época do império dos césares a guerreiros árabes acordando de suas mil e uma noites. Muitos diretores levaram muito a sério esse período histórico e construíram clássicos que até hoje emocionam pelo seu esplendor épico. Exemplos como Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz e Ben Hur de William Wyler quase todo mundo já ouviu falar, mas de As Verdes Bandeiras de Allah (1963), La vergine di Bali (1972) e Lo scoiattolo (1979) de Guido Zurli, poucos se recordam. Seus filmes alimentaram com criatividade, inventividade, sobretudo com muito humor, um gênero que fez sucesso quase uma década inteira, movendo capital de Hollywood para Cinecittà a procura da genialidade técnica dos eletricistas, designers e figurinistas italianos. Guido Zurli nasce em 9 de janeiro de 1929, em Foiano della Chiana, Arezzo, Toscana, Itália. Assistente de direção, roteirista, diretor cinematográfico. Este intrépido cineasta costumava dizer que entrou para o mundo do cinema por brincadeira e foi assim que atuou quase todo o tempo, brincando de fazer filmes. Zurli considerava o meio cinematográfico um lugar deslumbrante que lhe proporcionava hospedagens nos melhores hotéis, viagens de 1ª classe ao redor do mundo, assédio feminino, e todo prestigio que acompanha um diretor cinematográfico no auge do sucesso do cinema italiano. Desde 1957 Zurli vinha trabalhando como assistente de direção quando surge uma oportunidade de dirigir oferecida pelo colega Sergio Leone em Le Verdi bandiere di Allah - As Verdes Bandeiras de Allah (1963), num filme de Giacomo Gentilomo que Leone não se identifica em dirigir. 

A partir de então outros convites chegam de outros produtores e Zurli passa a frente da direção cinematográfica propriamente dita. O seu estilo de direção divertido e dissimulado beirando ao grotesco, acaba por perpassar as histórias, argumentos e roteiros que lhe caiam em mãos. Em È mezzanotte... butta giù Il cadavere - É meia noite joguem o cadáver (1966), fica acertado entre o produtor e Zurli que o filme tratava-se de um thriller, no decorrer das filmagens e sem que o produtor percebesse, Zurli realiza o seu capolavoro cinematográfico ao transformar o thriller do contrato firmado com o produtor em uma irreverente comédia thriller de escárnio. Não obstante o desagradável clima entre ele e o produtor, o filme é um sucesso de público. A partir dessa experiência bem-sucedida seu estilo, grotesco, irreverente por vezes trucido prevalece em outros trabalhos variando apenas de gênero, desde western, dramas, comédias a filmes eróticos; vindo a dirigir entre 1963 a 1994, dezenove filmes, alguns inclusive fora da Itália, na África, Turquia, E.U.A e Iugoslávia. Guido Zurli morre em 23 de outubro de 2009 em Roma, Itália.


Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.