domingo, 10 de março de 2019

Alfredo Angeli, roteirista e diretor cinematográfico de Livorno

Alfredo Angeli nasce em 7 de agosto de 1927, em Livorno, Toscana. Itália. Assistente de direção, roteirista, diretor cinematográfico. Sua carreira como diretor inicia nos primeiros anos de 1960 e somam mais de três mil filmes publicitários realizados, tornando-se um dos mais preparados profissionais da área, premiado em várias resenhas nacionais e internacionais.  Estreia no cinema com vinte e cinco anos trabalhando como assistente de Luigi Zampa em “Processo Allá città”. Sua vivencia com filmes publicitários e sua experiência adquirida como assistente de direção de Cottafavi, Mastrocinque e Petrucci o preparam para dirigir seu primeiro longa-metragem “La notte pazza Del comigliaccio” (1967), com Sandra Milo e Enrico Maria Salerno, uma comédia que faz uma crítica feroz aos costumes dos anos sessenta e selecionada para o 17º Festival Internacional de Cinema de Berlim. Após esse filme Angeli desaparece das telas de Cinema dedicando-se exclusivamente a vídeos comerciais e documentários. Entre as joias realizadas por Angeli está um filme curta-metragem em vídeo sobre os líderes do socialismo europeu deste século: Tony Blair, Lionel Jospin e Gerard Schoeder, cenas montadas por Angeli recordam a vida deles durante seus mandatos recentes, um retrato da vida em família e na política.  No cinema comercial Angeli reaparece em 1997 com o filme “Con rabbia e con amore” (1997), não obstante a longa espera pelo seu retorno, o filme parece não ser a altura de seus trabalhos anteriores e sela sua carreira no cinema. Alfredo Angeli morre em Roma em 25 de novembro de 2005.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Giulio Base, um pupilo de Vittorio Gassman, uma trajetória de sucesso no cinema


Giulio Base nasce em Turim em 1964, estuda teologia no Instituto Augustinianum na cidade do Vaticano e história do Cinema na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade La Sapienza, em Roma. Seu pai tinha na cidade de Turim um negócio de venda de pipocas no cinema quando Giulio era criança, ponto de partida de sua órbita entorno ao mundo cinematográfico.  Mas foi com Vittorio Gasmann que ele acreditou ser realmente possível ir além do negocio de pipocas de seu pai. O grande ator Gasmann foi o seu mestre ao abrir-lhe novos horizontes na arte da dramaturgia. E na cidade toscana de Florença, sob a direção de Gassman, na Bottega Teatrale di Firenze, que Base aprende o oficio de ator, interpretando na peça Misteri di San Pietroburgo. Seu caminho no cinema é marcado com prêmio já no seu primeiro filme, no San Sebastian Film Festival da Espanha em 1991, momento este em que Base se lançava na direção Cinematográfica com “Crack”, o filme é também exibido no Festival de Cinema de Veneza. O curioso que Crack também serviria de veiculo de lançamento no cinema de Maria Sole Tognazzi, que ao contrario do pai, Ugo Tognazzi, preferiu seguir atrás das câmeras sua carreira cinematográfica, ela trabalha como assistente de Base nesse filme. Em 1993 o seu mestre Gasmman se despende dos palcos e das telas, participa de seu último trabalho, no filme "La Bomba", uma comédia italoamericana filmada em Nova York e dessa vez Base seria o diretor de Gasmann. 



A ironia do destino coloca os dois novamente juntos, e se por um lado Gasmann esteve presente no inicio da carreira de Base, Base estaria presente no final da carreira de seu Mestre. Um ano depois, em 29 de junho de 2000, Vittorio Gasmann morreria em Roma. Depois de La bomba, Base desparece dos cinemas quase que totalmente, refugiando-se em séries de TV, dirige apenas dois longas para a tela grande, L'inchiesta com Mónica Cruz - sósia de Penelope Cruz - Max von Sydow e Onela Mutti no elenco e “Postcards from Rome” (2008).

Giulio Base e Vittorio Gassman
 Base retorna às telas de cinema em 2014 com “Il pretore”. Em 2018 atua e dirige em “Il banchiere anarchico”, baseado na obra homônima do poeta português Fernando Pessoa. É a história de um banqueiro, interpretado pelo próprio Base, que se depara em um momento de sua vida, na obrigação de revelar que foi um anárquico e sobretudo é ainda anárquico, mesmo na condução de seus negócios em seu banco, à revelia de governos e leis que fizeram parte de sua trajetória de sucesso como empreendedor no mundo do capital.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sábado, 2 de março de 2019

Enzo barboni o diretor que leva comicidade ao gênero western spaghetti


Quando o gênero western parecia estar morto e enterrado em uma cova rasa nos quintais de Hollywood, Leone e Corbucci, enquanto filmavam juntos no deserto de Almeria Espanha cenas do épico Pompeia, têm juntos a ideia de revisitar o gênero e criam o western spaguetti. Mas é Enzo barboni quem sem querer, inova ao introduzir elementos de comicidade ao gênero western spaghetti. Enzo Barboni nasce em 10 de julho de 1922, em Roma, Itália, roteirista, diretor de fotografia e diretor cinematográfico. Aos vinte anos durante a II Guerra trabalha como correspondente de guerra para o Instituto Luce no fronte russo-alemão. Nos anos 50’trabalha como operador de câmera para Sergio Corbucci e outros diretores, assinando algumas vezes também a fotografia em alguns filmes. 

Furgãozinho do Instituto Luce - Cinecittà. 

“Chuck Mull, O Homem da Vingança”, filme de 1970, foi o seu trabalho de estreia na direção, contudo, preferiu usar um pseudônimo: E.B.Clucher, ao seu nome verdadeiro. Embora tenha sido um bom filme, foi uma estreia sem alardes, passando desapercebida, um prenuncio para seu filme mais conhecido, que viria a ser nesse mesmo ano e chamar-se-ia "Lo chiamavano Trinità" - Chamam-me Trinity (1970), um grande sucesso do western spaghetti com a dupla Terence Hill e Bud Spencer nos papeis principais. 
Bud Spencer, Terence Hill e Thomas Rudy em Lo chiamavano Trinità... (1970)

Sobre “Lo chiamavano Trinità”, Enzo Barboni pretendia fazer um brilhante western e não uma comédia como se tornou o filme após a montagem, tudo somado a comicidade da dupla Spencer e Hill, o estilo despojado e as gags cativam um imenso público na Itália e em todo o mundo. Sobre esse filme é lembrar a cena bufa em que Terence Hill devora em segundos um prato de comida, para fazer a cena Hill estaria um dia inteiro desjejum. 

Terence Hill no papel de Trinità

Outros filmes com a dupla são realizados e acompanhados de abundante bilheteria e público, tendo Barboni criado um subgênero de muito sucesso dentro do western que lembra a dupla “Stan Laurel e Oliver Hardy” e as encenações de Vaudeville, gênero que foi continuado por outros diretores italianos e inclusive pelos americanos, como é o caso de “Blazing Saddles” – Banze do Oeste (1974), de Mel Brooks que também acrescenta comicidade ao western. Outros memoráveis momentos da dupla Terence Hill e Bud Spencer dirigidos por Enzo Barboni encontram-se nos filmes "Non c'è due senza quattro" - Eu, Você, Ele e os Outros, "Nati con la camicia" - Dois Loucos com Sorte e "Continuavano a chiamarlo Trinità" -Trinity Ainda é Meu Nome. Enzo Barboni morre em 23 de março de 2002 em Roma.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O cinema é uma arte vulgar por conter códigos muito precisos - Carmelo Bene


Carmelo Bene nasce em Lecce, Itália em 1937. Ator, roteirista, diretor cinematográfico. Bene pertence a uma família burguesa, tem uma personalidade contraditória, complexa e anarquica, bem cedo desiste do curso de Direito na La Sapienza para estudar na Academia Nacional de Arte Dramática Silvio d'Amico em Roma e na escola de recitação Sharoff. Até se considerar superior a didática e abandoná-las para formar sua própria companhia de Teatro na qual foi extremamente barroco, iconoclasta, experimental e consequentemente de vanguarda. Possuidor de uma vasta cultura, interpreta grandes clássicos quase sempre alterando seu conteúdo e forma, e por vezes criticando o próprio teatro oficial. Já o seu cinema possui uma continuidade desconstruída, uma linguagem de difícil compreensão para o código tradicional cinematográfico, por esse motivo seus filmes não obtiveram sucesso comercial, exceto na França onde um público sempre em busca de novidades o aclamou, a crítica italiana se divide entre os que o amam e os que o odeiam.  Muito contraditório Bene afirma que o cinema nasceu morto compreendido aquele de Lumiere e o resto, uma arte vulgar por conter códigos muito precisos e por isso o despreza, não obstante tenha feito muito bom uso desse veículo para se expressar.
Se alguém lê Ulisses, pode fechar o livro quando quiser, e isso é impossível fazer no cinema. Se levo o público aceitar certas coisas a nível racional, é uma desonestidade. Para mim, a comunicação é uma corrupção, e é só isso. Não quero que meus filmes comuniquem nada. (...) O cinema? É morto, eu digo há anos, por isso parei de fazê-lo (Carmelo Bene) (FALDINI&FOFI, 1984, p 379) Trad. do Autor.

Bene atuou nos filmes Edipo Re (1967); Creonte (1967), ambos de Pier Paolo Pasolini, Cineasta que admirava e considerava um amigo sincero e para Franco Indovina em Lo scatenato (1967), no papel de um padre. Dirige no cinema Nostra signora dei turchi (1968), com o qual vence o prêmio especial do Juri na Mostra de Veneza. Durante os anos de 1977 a 2002 dirige diversos filmes para TV, participa de diversos programas de entrevistas de maneira sempre contundente chegando a desafiar ao vivo telespectadores de forma inconveniente, inclusive personalidades das mais diversas, como ocorreu uma vez em uma discussão acalorada com o grande ator de cinema e teatro Vittorio Gassman, exibida ao vivo na TV. Bene sem dúvida foi um artista inovador e único no seu tempo, por vezes genial e sempre em busca de uma linguagem inexplorada e conceitual, seja no teatro como no cinema. Morre em Roma em 16 de março de 2002.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Paolo Cavara, um cineasta com um olhar no documentário e outro na ficção, experimentalismo puro

Anthony Quinn e Franco Nero em Los amigos, direção de Paolo Cavara
Paolo Cavara nasce em 4 de julho de 1926 em Bolonha, Itália. Diretor de fotografia, roteirista e diretor cinematográfico. Seu início no cinema se dá como diretor de fotografia em documentários, seu talento nessa profissão o leva a trabalhar com dois importantes diretores dos anos 50’, Franco Posperi e Gualtiero Jacopetti, para este último Cavara empunhou a câmera e foi autor de diversas sequências usadas nos documentários daquele diretor, porém não creditadas por Jacopetti. Nos anos seguintes, após muitos documentários realizados para si e para colegas ilustres, Cavara dirige seu primeiro longa-metragem “L'occhio selvaggio” - O Olho Selvagem (1967), uma ficção que a julgar pelo passado de Cavara mostra-se muito autobiográfico e autocrítico, sobretudo em relação ao próprio gênero documentário que até então vinha realizando, sobretudo, com Jacopetti. Num roteiro escrito a quatro mãos com Ugo Pirro, L'occhio selvaggio surpreende pela sua sinceridade sobre o meio ao qual estava inserido Cavara. Com esse filme debute, uma espécie de redenção, Cavara revela certos expedientes um tanto desonestos de autores que em busca do sucesso de uma boa história não são fiéis aos fatos, que muitas vezes vazios de significados precisam de um acontecimento inventado. Pela originalidade de sua denúncia e inovação de sua linguagem, Cavara ganha destaque na Itália e em outros países onde o filme é exibido. 
Com L'occhio selvaggio Cavara entra definitivamente no cinema de produção comercial logrando êxito tanto de público como de crítica devido ao seu exótico e inovador experimentalismo. Seus próximos filmes, embora aparentemente diversos, possuem características muito marcantes de estilo e linguagem, sendo eles La tarantola dal ventre nero = A tarântula do ventre negro (1971) e ...e tanta paura = ...e tanto medo (1976), este último um filme de vanguarda para o ano que foi feito e pouco compreendido pelo público. Público esse ainda muito impregnado de significantes de gêneros populares típicos do período, de produção massificada, estereotipada que preservava hábitos e comportamentos conservadores nos espectadores. E em meio a um contagiante gênero Spaghetti western que nascia e lotava salas de cinema por toda a Europa, Cavara dirige seu primeiro blockbuster, um western intitulado Los amigos - Rápidos, Brutos e Mortais (1973). No elenco estão duas grandes estrelas, Franco Nero e Anthony Quinn, dois monstros do cinema. Cavara seguindo os ditames de um cinema comercial o faz mais ao estilo hollywoodiano e o filme, embora se aproveite da ciranda de sucesso do spaghetti western, mantém-se dentro dos padrões do western dos anos 40’, 50’ de Ford, Walsh etc e sem novidades. 
Com “Il lumacone” (1974), Cavara explora o gênero comédia de costumes, mas com uma graciosa carga de erotismo, onde a sensualidade, o frescor e a juventude de Elisa (Agostina Belli) encantam e dificultam a aproximação do apaixonado Lumacone, o lento, vagaroso e tímido Ginetto (Ninetto Davolli), esperto para pequenos furtos, mas que caminha com a lentidão de um caramujo com as mulheres. Davolli é original e gracioso ao retratar a esperteza e a bondade do homem simples italiano em seu desejo sincero de se redimir de um passado comprometedor. O filme tem seu roteiro escrito por Ruggero Maccari, o grande comediante do jornal satírico Marc’ Aurelio. Cavara morreu em 7 de agosto de 1982 em Roma.

Luiz Chiozzotto

chiozzottoit@gmail.com
Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Nino Manfredi, diretor de três filmes, como ator colaborou imensamente com os melhores diretores italianos

Nino Manfredi em I soliti ignoti de Mario Monicelli
Nino Manfredi nasce em 22 de março de 1921 em Castro Dei Volsci, Lazio, Itália. Dublador, ator, roteirista, diretor cinematográfico. Manfredi é filho de camponeses, seu pai ao entrar na polícia é transferido para Roma com a família de maneira que Nino ainda garoto tem contato com a grande cidade e seus encantos. Sempre inquieto e questionador, mas profundamente voltado para a família, inscreve-se no curso de Direito para agradar aos pais, não obstante tenha declinado da profissão em detrimento ao mundo do espetáculo. Durante a guerra, em idade de se alistar foge com o irmão e se esconde nas montanhas até o conflito acabar, ao voltar a Roma dedica-se exclusivamente à carreira de ator inscrevendo-se na Accademia nazionale d'arte drammatica em Roma.  Sem dúvida um dos maiores artistas de seu tempo, ao lado de seus contemporâneos Alberto Sordi, Ugo Tognazzi, Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni seu conterrâneo. Manfredi circula com desenvoltura entre os diversos veículos de comunicação, seja teatro, rádio, TV, cinema, compreendendo as sutilezas e nuances de cada um, adaptando e criando improvisadamente gags que enriquecem a mensagem sem exagerar nos clichês ou forçar demais na interpretação. Manfredi torna-se em pouco tempo um dos mais conhecidos atores da Itália, e transportar toda essa riqueza de experimentação para o lado oposto da lente de uma câmera, na condição de diretor, é para ele mais um estimulo em sua carreira.

Havia recusado de tudo, e me vi outra vez voltado a ideia da direção por um problema pessoal. Fui educado num país católico, recebi uma educação católica que um dia considerei errada e que não queria dar aos meus filhos. Diante dessa crise religiosa e como não sabia o que dizer aos meus filhos, pensei em dar uma resposta autobiográfica, através de um filme. Per grazia ricevuta teve um enorme sucesso porque era um filme muito sincero, muito pessoal. (...) Dirijo um filme só quando sinto necessidade de me exprimir. (Nino Manfredi) (FALDINI&FOFI, 1984, p 196).

Eleonora Giorgi e Nino Manfdredi em Nudo di donna de Nino Manfredi



Manfredi é um artista completo que em nossa memória se constitui como um ser dificilmente destacado da imagem, particularmente àquela cinematográfica. Como uma espécie de Chaplin, Manfredi é possuidor de um carisma, de uma versatilidade para o improviso, de uma elasticidade corporal e uma mímica surpreendentes. É um talentoso interprete dotado de uma inteligência para viver personagens dos mais diversos e construir simulacros fazendo-os transparecer verossimilhança, mesmo quando carregados pelas dores de suas maiores vicissitudes. Improvisadamente passa a dirigir, seu debute como diretor se dá com um filme L'amore difficile - Amores Eróticos (1962), cujo trecho por ele dirigido é L'avventura di um soldato. No segundo filme por ele dirigido, um longa-metragem intitulado "Per grazia ricevuta" - Por uma Graça Recebida (1971), tendo no elenco ele próprio ao lado de Lionel Stander, Delia Boccardo; Manfredi vence o Prêmio Palma d'oro pela Melhor Obra Prima no Festival de Cannes e o Prêmio Nastro d'argento pelo Melhor argumento. "O maior sucesso de Manfredi é para grazia ricevuta de 1971, ingênuo, e um dos poucos filmes dirigidos por um cômico nos últimos trinta anos no qual é possível reconhecer a utilidade da concentração nos papeis que interpreta. (...) (BRUNETTA, 2009) Trad. do Autor. 

Nino Manfredi em Brutti, sporchi e cattivi de Ettore Scola

Na mesma década de 70’ Manfredi retorna a profissão de Ator para interpretar papeis memoráveis como o avarento caolho Giacinto Mazzatella no sublime filme de Ettore Scola: Brutti, sporchi e cattivi - Feios, Sujos E Malvados (1976). Como Diretor Manfredi dirige 3 filmes, mas indiretamente colabora com diversos diretores na direção, como ator atuou em aproximadamente 120 filmes. Saturnino Manfredi, seu nome de batismo, morre em Roma em 04 de junho de 2004.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Domenico Paolella, o diretor das comédias singelas e descompromissadas


Domenico Paolella nasce em 15 de outubro de 1915 em Foggia, Puglia, Itália. Roteirista, diretor cinematográfico. Inicia profissionalmente num set cinematográfico em pleno regime fascista, como assistente de direção para Carmine Gallone no colossal italiano Scipione l'africano (1937). Terminada a experiência no maior filme da década Paolella se insere na indústria cinematográfica fascista com sede em Cinecittà e dirige pela primeira vez Gli ultimi della strada (1940). O filme apesar de conter significação fascista é bastante documental restando como um testemunho do substrato social da época e insere no panorama cinematográfico fascista um cineasta que em muitos momentos não se deixou levar pelo sistema político do regime. Com a queda de Mussolini Paolella precisa se reinventar e adere rapidamente ao gênero popular de filme de batalhas romanas, piratas e capa espadas em geral.
A luta para fazer filmes populares sempre existiu, pelo menos da minha parte, por motivos de custo. (...) atores verdadeiros, externas, construções, técnicos. E nem sempre isso era possível, mas quando fora, os filmes caminharam, e o público não se sentia enganado (Domenico Paolella) (FALDINI&FOFI, 1984, p. 449). Trad. do Autor
Na intenção de se estabelecer e pôr em movimento um grupo de profissionais técnicos que o acompanhavam há anos, Paolella empreende em 1952 um seguimento popular denominado musicarello, um subgênero italiano novo o qual se resume em fazer filmes para publicidade de cantores de sucesso em um determinado momento, divulgar suas músicas e seus discos. O seu primeiro filme de uma série nesse gênero é Un ladro in paradiso (1952), tendo Nino Taranto como protagonista, famoso cantor italiano dos anos 50. Décadas depois quando Paolella já havia ressignificado o gênero o bastante, dirige “Gardenia, il giustiziere della mala” (1979), cujo protagonista é o cantor popular italiano Franco Galifano. A história discorre sobre um problema social que afeta profundamente a sociedade, o tráfico de drogas entorpecentes em casas noturnas. Gardenia (Franco Galifano) é proprietário de um night romano e não aceita o tráfico, motivo mais que suficiente para travar uma batalha com Salluzzo (Martin Balsam) o chefe do tráfico em Roma. Dentre os inúmeros filmes policiescos feitos na seara da moda do gênero, Gardenia se destaca também pela excepcional fotografia de Sergio Rubini que constrói uma particular atmosfera noir, sobretudo, nas cenas noturnas do night.
Acredito que possamos distinguir entre períodos 48’-55’ prevalece o gênero romano antigo; depois até 64’ o mitológico e o de piratas, depois de 65’ a 70 o western, e até 77 o policial. (...). Quando o filme é mitológico o herói está literalmente nu e combate contra os mitos tremendos daquele tempo e os de sempre, quer dizer, contra o poder. Depois esse herói transforma-se em pirata, época em que os piratas modernos se difundem. No western, ao contrário, o herói é amado, reage em legitima defesa, dispara bem no último momento, um segundo antes que dispare o inimigo (...) (Domenico Paolella) (FALDINI&FOFI, 1984, p 449). Trad. do Autor.

Voltando cronologicamente a sua produção cinematográfica encontramos o gênero comédia, particularmente uma bastante original: "Il coraggio" (1955), com Totò interpretando um viúvo que vive com sua imensa prole mais o seu avô, todos a reboque por onde quer que ele vá. Desesperado diante sua condição econômica precária decide dar fim a sua vida e se atira no rio Tibre. A partir daí o filme – lembrando que é uma comédia de Totò – toma outro rumo completamente inesperado. O sucesso da comicidade com Totò nesse filme rende a Paolella a possibilidade de dirigir um segundo filme com ele, intitulado "Destinazione Piovarolo" (1956). Sábado, 28 de outubro de 1922, o telégrafo da estação passa a mensagem que a Itália a partir deste dia vira fascista - Destinazione Piovarolo é uma Comédia irreverente que tem o Fascismo como pano de fundo – O novo governo instalado transfere Totò para a cidade longínqua, a fictícia Piovarolo, onde os dias passam lentamente e a maior parte do tempo chove. 

Após esses dois filmes com Totò a cinematografia de Paolella engata uma marcha lenta; o subgênero Musicarello está com seus dias contados e antes mesmo do seu declínio, na metade dos anos 60, Paolella se lança num outro gênero popular, a aventura. O filme é I pirati della costa - Os Piratas da Costa (1960), o melhor dessa série de filmes pouco representativos em sua carreira, cujos títulos burlescos anunciam conteúdos afins, quase sempre previsíveis, alguns deles geniais, lugar certo de inspiração para cineastas deste século. Domenico Paolella morre em 7 de outubro de 2002 em Roma.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Riccardo Freda, o maior e mais criativo cineasta no gênero aventura dos anos de ouro de Cinecittà


Il cavaliere misterioso - Vittorio Gassman e María Mercader

Seu debute como cineasta é na direção de Don Cesare di Bazan (1942), um filme de aventura muito avante no tempo, uma verdadeira obra de arte partindo de um iniciante, cuja trama é escrita por ele junto de Rossellini, De Sica, Amidei e Zavattini, respectivamente autores neorrealistas. Freda, no entanto, atacaria acidamente anos depois o neorrealismo, principalmente quando a crítica e os intelectuais não reconheceriam seu esforço em fazer valer o seu gênero predileto, que era aquele da aventura ao estilo hollywoodiano. Mas a partir da queda do regime as coisas não seriam fáceis para o prodigioso Freda, com a queda da ditadura de Mussolini ele fica estigmatizado ao regime e é preciso um tempo para se adequar aos novos ares de liberdade e justiça que se respirava na península. Nesse período Freda se transfere ao Brasil a convite do governo do país para dirigir Guarany, um filme sobre um personagem indígena, mito nacional, nascido do romance do escritor brasileiro José de Alencar e com roteiro de Goffredo D’Andrea. O filme de Freda é finalizado em poucas semanas e faz enorme sucesso e lhe dá prestigio no meio cinematográfico brasileiro, ele recebe um dos maiores cachês do governo pelo seu trabalho. Anos depois reconhece em entrevista que foi a maior soma em dinheiro já recebida por dirigir um filme em toda a sua vida. É convidado para se estabelecer no Rio de Janeiro para fazer mais filmes, mas declina ao convite devido à recusa da esposa, a época Gianna Maria Canale, em viver no Brasil. Mas passados alguns anos Guarany se perde não restando cópia alguma do filme - até onde se sabe - em 1996, a atriz e diretora Norma Bengell recoloca em cena este épico tupiniquim que sempre incomoda certa ala direitista nacional por colocar o índio como herói nacional.
Com a soma que Freda ganha com o filme ítalo-brasileiro, ao retornar à Itália pode dar-se ao luxo de financiar seu retorno ao cinema, espera a melhor oportunidade para filmar uma aventura a seu gosto, que acontece com "Il Cavaliere misterioso" (1948), estrelado por Vittorio Gassman em um de seus primeiros papéis como protagonista no cinema, até então escalado para papéis de vilão.
Riccardo Freda nasce em 24 de fevereiro de 1909, em Alexandria, Egito. Roteirista, diretor cinematográfico. É filho de pais napolitanos, vive a tenra infância junto de outros nove irmãos no Egito, onde seu pai se transfere para trabalhar no mercado financeiro. A amizade com sheiks árabes atrai fortunas e seu pai torna-se um rico proprietário de banco naquele país. Mas o destino faria com que não permanecessem juntos; o banco além de financiar a revolução árabe atrai lindas mulheres e assim, por conta de uma amante, seu pai transfere toda a família a Milão para viver seu romance árabe. Para a sorte de Riccardo, não obstante o desfortúnio de sua mãe, agora ele pode ir todos os dias ao cinema. E é em companhia de sua mãe que assiste aos mais significativos filmes dessa época. Sua predileção são aqueles de aventura de Douglas Fairbanks; Rodolfo Valentino; clássicos do cinema mudo que influenciarão sua escolha de gênero cinematográfico como cineasta, bem como sua linguagem que aproveita dos gestos em detrimento a palavras para definir uma ação, estratégia rara hoje em dia e muito pouco usada pelos novos representantes do cinema sonoro da época.
De família muito rica, Riccardo pode se dedicar ao hobby de escultor enquanto cursa Arquitetura e Artes na Universidade de Milão. Entretanto, sua escolha pela carreira de cineasta desagrada profundamente a família e torna-se o único filho tripudiado entre seus irmãos. Mas o pai morre jovem, aos 52 anos, e Freda passa a decidir o seu destino tornando-se no decurso dos anos um monumento do cinema italiano, uma das colunas da sétima arte na Itália.
A base da nova cinematografia nacional italiana, aquela que seria considerada estratégica nos anos bélicos fascistas por Mussolini passará pelas mãos de Freda. Seus primeiros trabalhos são como Crítico de Arte para o jornal "Il popolo di Lombardia" e como Supervisor de produção cinematográfica para a "Elica Film" e "Tirrenia Film". Em 1933 vai para capital estudar Direção cinematográfica no Centro Sperimentale di Cinematografia, que fica bem perto da recém inaugurada Cinecittà, o maior estúdio de cinema da Europa. Nesse ambiente é descoberto por Produtores e Cineastas da época, como Gennaro Righelli, Giacomo Gentilomo, Goffredo Alessandrini e Raffaele Matarazzo, para quem passa a escrever roteiros. Conjuntamente, o seu trabalho burocrático no departamento de censura abre caminho para assistir filmes que eram sucessos de bilheteria na América, mas proibidos durante o regime, clássicos que só seriam vistos pelo público italiano após a queda do fascismo. Essa experiência sensorial servirá de fonte de inspiração para os filmes que ele dirigiria após a guerra.



A criatividade e engenhosidade de Freda sempre estiveram ao seu favor possibilitando realizar com poucos recursos, filmes e efeitos especiais surpreendentes, principalmente a partir de sua parceria com Mario Bava na iluminação de cena e na direção de fotografia. Os filmes de Freda representavam entretenimento certo, equivalente hoje em dia em estilo e diversão aos filmes de Spielberg, considerando as devidas proporções e os recursos técnicos disponíveis a época. Até mesmo seu nome nos créditos ele costumava alterar para dar a impressão de se tratar de filme estrangeiro; usava pseudônimos como Richard Freda, Robert Hampton, Robert Davidson, George Lincoln, Dick Jordan, Willy Pareto; prática que se tornaria usual por outros cineastas italianos a partir de então, visando aumentar a bilheteria para filmes italianos fazendo-se passar por staf norte-americano. Os trabalhos de Freda só não foram à frente nos anos 1950/70, pois ele atuou numa época em que o cinema italiano era referência mundial pelo movimento neorrealista. E para Freda o cinema não é retratar o sofrimento dos desvalidos do pós-guerra, é, sobretudo, ação, tensão e velocidade, puro entretenimento. As histórias que conta em seus filmes possuem uma atmosfera que lembram os filmes mudos que assistiu ao lado da mãe na infância, enredos que não nascem da crônica diária, senão de referencias ao “herói mito”, distante do homem comum, vitima das adversidades da guerra, da pobreza e da marginalidade social, retratados no neorrealismo pelos seus mais fieis representantes.
Freda dirigiu com relativa constância filmes que vão da fantasia do gênero aventura, horror, batalhas romanas ao realismo da literatura, clássicos inesquecíveis como “Aquila nera” (1946), de um conto de Puskin; “I miserabili” (1948), de Vitor Hugo; Romeo e Giulietta (1964), de Willian Shakespeare. O seu filme Spartaco (1953), com Masimo Girotti no papel de Spartacus, de fundo socialista é tão bem construído que os direitos são adquiridos pela Bryna Productions como base para Kirk Douglas desempenhar seu papel de Spartacus no filme homônimo dirigido por Stanley Kubrick em 1969. Seus filmes ao estilo melodrama de espionagem, western e, sobretudo, de horror tornaram-se verdadeiros cult-movies, e são vistos e revistos por uma quantidade de fãs sempre maior a cada nova geração. Procure no Youtube por Riccardo Freda e se surpreenda com o puro cinema de uma época.
Riccardo Freda morre em 20 de dezembro de 1999 em Roma.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Adolfo Celi, o ator diretor de múltiplas faces e surpreendentes histórias


Adolfo Celi em Thundeball
Adolfo Celi nasce em Messina, Sicília, Itália em 27 de julho de 1922. Ator, roteirista e diretor cinematográfico. Estudou na Academia Nacional de Arte Dramática de Roma e antes de se tornar diretor interpreta diferentes personagens como ator em mais de 100 filmes, iniciando no cinema em Un americano in vacanza - Um Ianque na Itália (1946) e em Anni difficili = Anos difíceis (1948), ambos de Luigi Zampa. 
Em 1948 muda-se para o Brasil para trabalhar no TBC - Teatro Brasileiro de Comédia fazendo sua estreia com a peça Nick – Bar, seus primeiros passos a caminho da direção de cinema. Após dois anos dirigindo peças no TBC surge a oportunidade no cinema paulista como diretor ao lado de Tom Payne e John Waterhouse no filme Caiçara (1950), com Eliane Lage, Abilio Pereira de Almeida e Carlos Vergueiro. O filme é produzido pela produtora de cinema Vera Cruz para quem Celi fará outros trabalhos no Brasil. 


Em 1952 casa-se com a atriz Tonia Carreiro que dirige em Tico-Tico no Fubá, seu segundo filme, uma comédia de costumes cujo protagonista é Anselmo Duarte. Duarte é o único cineasta brasileiro a vencer a Palma de Ouro e o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes com o filme O Pagador de Promessas (1961). Adolfo Celi ainda dirige diferentes episódios de mini séries na TV Tupi em São Paulo antes de voltar definitivamente para a Itália.  L'alibi (1969), uma comédia com Vittorio Gassman, Grande Otelo, Luciano Lucignani e ele mesmo; com música de Ennio Morricone e Sergio Endrigo é a sua última experiência como diretor cinematográfico. 

Claudia Cardinale e Adolfo Celi em Libera, amore mio! de Mauro Bolognioni
A partir da década de 70’ se dedica exclusivamente a carreira de ator, interpretando inúmeros papéis marcantes na cinematografia mundial, dentre eles o vilão de James Bond em Thunderball, - 007 Contra a Chantagem Atômica (1965), de Terence Young e o Professor Sassaroli em Amici Miei 1975, de Mario Monicelli. Celi morre em 19 de fevereiro de 1986 em Siena, Toscana, Itália.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Eugenio Cappuccio, o cineasta que filma com uma máquina fotográfica Canon 7D.


Eugenio Cappuccio nasceu em 1961, em Latina, Itália. Fotógrafo, ator, roteirista e diretor cinematográfico. Foi um privilegiado de sua geração ao ser assistente de direção de Federico Fellini em “Ginger e Fred” (1986), apenas um ano depois de se formar no “CSC - Centro Sperimentale di Cinematografia”.  Debuta no Cinema ao lado dos colegas Massimo Gaudioso e Fabio Nunziata, dividindo com eles a direção e o roteiro, o filme chama-se “Il caricatore” (1995), apresentado primeiro na versão curta metragem e um ano depois na versão longa metragem. O Cinema para Cappuccio é um processo constante de pesquisa onde o roteiro está aberto a transformações, e a idéia inicial dificilmente permanece, geralmente muda ou morre, permitindo ressurgir algo diverso, e isso não só a partir da transformação do roteiro, do argumento, mas também a partir da interação do diretor que está suscetível ao acaso, a possibilidade de experimentação, ao improviso, as circunstâncias e a diversidade de pensamentos, restando à edição o momento em que Cappuccio introduz a “alma” no filme. Nesse seu processo criativo Cappuccio considera o ator o motor do filme cabendo ao diretor provocar-lhe, promover uma interação de acordo com a sensibilidade, contingência e o lugar em que a história está acontecendo, sugerir-lhe e descobrir junto com ele o caminho. Em 2011 Cappuccio promove também uma importante mudança técnica na forma do filme surpreendendo a indústria cinematográfica ao realizar um filme inteiro, todo com uma máquina fotográfica Canon 7D. O filme “Se sei così ti dico si” (2011), uma comédia inteligente e bem feita, com Emilio Solfrizzi, Belén Rodríguez, Fabrizio Buompastore no elenco é o primeiro filme da história do Cinema italiano a ser feito através de uma câmera fotográfica digital. Cappuccio vislumbra como um bruxo o futuro do Cinema apostando em uma tecnologia que muito em breve permitirá que muitos se manifestem profissionalmente mesmo que destacados do Cinema corporativo. Seus últimos trabalhos tem sido para a TV italiana.

Luiz Chiozzotto
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Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Franco Rossi, dirigiu talvez o melhor filme da dupla Bud Spercer e Terence Hill.

Bud Spencer e Terence Hill
Franco Rossi nasce em 28 de abril de 1919, em Florença, Toscana, Itália. É um dos cineastas mais inteligentes e com obras autorais de maior significado para a cinematografia na história do cinema italiano. Inicia pelas mãos de Vergano, Camerini, Castellani, para quem foi assistente de direção. Seu debute na direção ocorre em Solo per te Lucia (1952), mas será Il sedutore (1954), o seu melhor filme dessa década; divertido, romântico, ao estilo “comédia de casais que não vão bem na relação”. O filme é ainda uma das melhores interpretações da primeira fase da carreira de Alberto Sordi ambientado em Roma, a cidade natal de Sordi. No início da década de sessenta, agora sob influência do ritmo da vida romana e na eminência de dirigir Smog um de seus mais autobiográficos trabalhos, Rossi revela:
Eu não sou de Roma, mas de Roma eu gosto de tudo, méritos e defeitos, vícios e virtudes. Pertenço à geração daqueles provincianos que, subitamente se veem vivendo na capital pouco depois da guerra, enamoram-se imediatamente dos sorrisos das mulheres e da tranquila arrogância dos homens. (...) (Franco Rossi) (FALDINI&FOFI, 1984, p. 427) Trad. Autor.


Sob essa visão da cidade eterna nasce “Smog” (1962), uma espécie de Dolce vita ao contrário, no qual Rossi investiga italianos que vivem em Hollywood submetendo-se a uma vida materialista, privada de valores humanos e trabalhando como serviçais de americanos ricos e de vida fútil. Esse pequeno mundo ilusório é questionado pelo advogado materialista Vittorio Ciocchetti interpretado com primazia por Enrico Maria Salerno. O filme conta com um roteiro inteligente e diálogos muito bem construídos por um grupo seleto de talentos como Franco Brusati, Pasquale Festa Campanile, além de interpretações surpreendentes de Annie Girardot e Renato Salvatori, que na época eram casados. O outro grande filme autoral de Rossi é o anterior a Smog, cujo ator Enrico Maria Salerno também interpreta uma espécie de antropólogo e se chama Odissea nuda (1961), ambientado no Taiti e na Polinésia francesa. Os dois filmes juntos representam grandes momentos de sua carreira, duas verdadeiras obras de arte da cinematografia mundial. Mas de repente desvia o foco para produções comerciais e é seduzido pela TV. Faz inúmeros filmes comerciais, e pequenas participações em curtas metragens ao lado de outros diretores sobrando pouco de sua marca, cujo ritmo dinâmico e reflexivo permanecem como única coisa boa de seu estilo. Em 1968 Rossi está definitivamente trabalhando como empregado na RAI, sendo responsável pelo primeiro projeto de mini série levado ao ar pela emissora, Odissea. Dirige todos os oito episódios que inauguram um seguimento televisivo que fará tremendo sucesso na TV. Na década de 70’, quando sua carreira parece estagnar-se ele dirige outra vez para a tela grande Porgi l'altra guancia - Dois Missionários do Barulho (1974), curiosamente o melhor filme da dupla Bud Spercer e Terence Hill e exibido pela RAI na abertura da celebração à Bud Spencer na ocasião de sua morte em 2016. Rossi morre em 05 de junho de 2000, em Roma.

Luiz Chiozzotto
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Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Carlo Di Palma, o cineasta que dá forma à atmosfera europeia no cinema

Monica Vitti e  Richard Harris em Il deserto rosso (1964)

Carlo Di Palma nasce em 17 de abril de 1925, em Roma, Itália. Diretor de fotografia, operador de câmera, diretor cinematográfico. Dentre as funções que atua no cinema a mais celebre de todas é a de diretor de fotografia; o legado de sua arte emociona gerações pela beleza de sua fotografia tanto em preto e branco como colorida, um lenimento aos olhos. Em Romanzo di un giovane povero (1942), de Guido Brignone já é possível ler o seu nome nos créditos, depois em em Obssessão (1943) de Visconti. Di Palma é requisitado por diretores italianos, franceses, hungaros e na década de 80’ atravessa o atlântico e confirma sua marca registrada nos filmes de outros colegas; no do americano Wood Allen em Hannah e Suas Irmãs (1983), e no do brasileiro Bruno Barreto em Gabriela (1983). Di Palma também estudou na prestigiosa escola romana de cinema, a CSC. A partir dos anos 60’ sua fotografia é responsável pela beleza de importantes filmes como L'assassino (1961) de Petri. Os primeiros experimentos em colorido de Antonioni em Il deserto rosso (1964), cuja fotografia riqueza cromática de tons complementa parte importante da psicologia da personagem de Monica Vitti na história. Ainda com Antonioni dirige Blow-up (1966), cuja iluminação Di Palma surpreende com o que há de mais inovador para a época, a ponto de Stanley Kubrick, que no mesmo período filmava 2001 Odisséia no Espaço (1968), fizesse uso de seu estilo em uma cena desse seu clássico de ficção cientifica e convidando Di Palma para dirigir a fotografia. Ainda na década de 60’ dirige a fotografia para filmes de Risi, Monicelli, Bertolucci, Zampa, só para citar alguns. Em 1970 passa a ocupar a cadeira de diretor, dirige três comédias apenas em toda sua carreira, todos com sua esposa Monica Vitti como protagonista: Teresa la ladra = Teresa a ladra (1973), Qui comincia l'avventura = Aqui Começa a Aventura (1975), Mimì Bluette... fiore del mio giardino = Mimì Bluette... flor do meu jardim (1976), filmes que gozam de boa receptividade, principalmente o elogiado Teresa la ladra. Em 1983, já muito reconhecido internacionalmente registra sua magnífica fotografia em filmes de Allen, um período que pode se dizer ser o do encontro de dois gênios da cinematografia mundial, quando juntos recriam a atmosfera europeia na América, tanto valorizada por Allen e recriada para os seus filmes graças a Di Palma. São desse período algumas joias de celuloide, como Hannah e Suas Irmãs (1983), A Era do Rádio (1987), Setembro (1987), Simplesmente Alice (1990), Maridos e Esposas (1992) e Desconstruindo Harry (1997), num total de 14 anos de um criativo e prospero relacionamento. Carlo Di Palma morre em 9 de julho de 2004 em Roma, Itália.

Luiz Chiozzotto
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Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Antonio Margheriti, o cineasta que trouxe a perfeição artesanal ao gênero ficção espacial

              Barbara Steele em I lunghi capelli della morte

No final da década de 60, o grande cineasta Stanley Kubrick lança seu surpreendente “2001, uma odisseia no espaço”, solidificando um gênero que até então era feito nos bastidores de Hollywood, denominado Ficção espacial, encontrando espaços em filmes B. Mas antes, oito anos antes desse feito de sucesso Kubrickiano, Antonio Margheriti já fazia experimentos imagéticos profundos na tentativa de retratar a vida humana conquistando o espaço sideral, com objetos simples e o correto uso da iluminação produzindo imagens espetaculares a um custo muito baixo. Antonio Margheriti nasce em 19 de setembro de 1930 em Roma, Lazio, Itália. Roteirista, diretor cinematográfico. Margheriti é um leitor apaixonado por gibis de flash Gordon e Mandrake, de onde eduz inspiração para criar a atmosfera de seus filmes de espaço sideral, inicialmente em curtas-metragens. Com os anos Margheriti se especializa no gênero Ficção cientifica espacial, uma novidade na cinematografia italiana. Ele faz isso oito anos antes de Stanley Kubrick realizar 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). Após mostrar seu talento em curtas-metragens e realizar com destreza efeitos especiais com materiais simples, dirige seu primeiro longa-metragem espacial, e o primeiro do gênero na Itália - considerando naves entorno do planeta terra, homens no espaço fora da gravidade. 

                                        

O filme chama-se Space Men (1960), e conta com efeitos especiais artesanais e muita similaridade com o mundo real, confeccionados por Margheriti. Sua técnica e destreza no trato com a luz mostra a capacidade inventiva de Margheriti em fazer um filme com qualidade estética surpreendente para a época e com um baixíssimo orçamento.  Ao mesmo tempo Margheriti cria um público italiano para um gênero, cujo maior realizador nesse seguimento era Hollywood, mas a custos astronômicos. Margheriti não fica estagnado no gênero que ele dá vida na Itália, envereda por outros como o Horror, a Aventura e a Ação, dirigindo regularmente filmes durante toda a década de 60’. Em I lunghi capelli della morte - A Máscara do Demônio (1964), a protagonista é Barbara Steele que com seu rosto e olhos exóticos tornam o filme um sucesso sedimentando o trabalho de Margheriti nesse seguimento conhecido internacionalmente. Na quase totalidade de seus filmes, mais de cinquenta durante quase três décadas, ele usa o pseudônimo de Anthony M. Dawson. 

Space Men (1960) de Antonio Margheriti.

Em virtude de sua capacidade inventiva Margheriti é convidado a realizar o maior projeto da RAI intitulado L'isola Del tesoro (1987), um antigo projeto do colega Renato Castellani que em decorrência de sua morte não consegue realizar. Nas mãos de Antonio Margueritti que segue fielmente as exigências de Castellani, o filme entra para a história da RAI como o maior e mais caro projeto produzido, considerando não só o mercado televisivo como aquele cinematográfico, conquistando uma das maiores audiências da TV estatal italiana. Antonio Margheriti morre em Monterosi, Lazio, Itália em 4 de novembro de 2002, seu filho Edoardo Margheriti é Produtor e diretor de efeitos especiais.

Luiz Chiozzotto
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Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Carmine Gallone, o cineasta do mais grandioso filme da década de 30’

Carmine Gallone nasce em Taggia, Ligúria, Itália como Carmelo Camillo em 10 de setembro de 1885. Roteirista, produtor e diretor cinematográfico. Gallone dirige filmes na Itália, Alemanha, Áustria, Inglaterra, e França, neste último país René Clair era o diretor mais influente sendo possível ver traços dele nas obras de Gallone do periodo. Gallone faz também nessa mesma época vários filmes roteirizados por Henri-Georges Clouzot. A partir de 1935, retorna à Itália após um período na Alemanha em decorrência de uma forte crise que se abateu no cinema italiano e dirige o filme Casta diva - Um Grande Amor de Bellini (1935). Essa biografia musical da vida do Cantor Lírico italiano Vincenzo Bellini faz enorme sucesso de público e crítica e torna-se um embrião da sua ideia de levar a Opera para o Cinema. Gallone pertence a uma época em que o cinema italiano queria despertar os grandes césares do império romano, talvez pela influência do fascismo, talvez pela ideia de grandeza de alguns produtores e diretores, certo é que Gallone chegou perto do Olimpo com o seu épico "Scipione l'africano" Scipião, O Africano (1937), o mais grandioso filme da década de 30’, com elefantes e outros animais de verdade usados nas batalhas, além de mais de 6000 figurantes. O filme foi concluido no mesmo ano de inauguração de Cinecittà, o maior estudio cinematográfico da Europa. Interessante que em meio a tantos filmes de valor de Gallone lamentavelmente ele é quase sempre lembrado por Scipione l'africano, realizado em pleno auge do regime fascista e inclusive vencedor do Prêmio Mussolini de Melhor filme no Festival de Veneza de 1937. Outra curiosidade sobre o filme é que Alberto Sordi com apenas 17 anos de idade interpreta um soldado nesse magnífico de proporções gigantescas. Em 1938 Gallone põe em moto sua ideia das Operas líricas filmando Giuseppe Verdi, no decurso dos anos serão aproximadamente 25 filmes nesse gênero. Uma ideia de sucesso uma vez que permite aos frequentadores de salas de cinema conhecer a Opera e os grandes cantores ao custo de um ingresso de cinema. Dentre esses músicos estão Mozart no filme Melodie eterne, 1940; Puccini, 1953 e também filmes de óperas canônicos como Manon Lescaut de 1940; Il Trovatore de 1949, e Madame Butterfly de 1954. Por fim com Carmen di Trastevere (1962), Gallone encerra sua trajetória como Diretor de cinema. Gallone viveu várias épocas do cinema italiano, inicia no cinema mudo, dirige mais de 130 filmes na Itália e no exterior tendo conseguido se reinventar em diversos períodos, viveu a passagem do mudo para o sonoro sem perder a qualidade em seus filmes e consegue adaptar seu gosto pelas Operas à linguagem do cinema. Carmine Gallone morre em Roma em 11 março de 1973.

Luiz Chiozzotto
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Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.