terça-feira, 24 de julho de 2018

Valerio Zurlini o cineasta do sentimento amoroso



Jean-Louis Trintgnant e Eleonora Rossi Drago em State Violenta - Valerio Zurlini

É incrível como o que separa os diretores do passado com os de nossa época não são apenas os anos, e em alguns casos a ausência física em decorrência da morte de alguns. O que é bastante evidente da parte dos cineastas mais antigos e se concentra no conteúdo de suas obras. Elas quase sempre vêm com algo a mais, metáforas escondidas em chaves de linguagem que denotam uma preocupação que vai além daquela da forma e do conteúdo e se estruturam em bases eruditas. Os filmes nascem de uma observação da realidade em base a leitura dos clássicos da literatura, da troca de informações com outros representantes do mundo artístico e literário. O diretor bolonhês Valério Zurlini, formado em Direito e História da Arte faz uma trajetória artística pautada pela ética a qual vem notada pelo seu rigoroso método que contempla uma valoração tanto da forma como do conteúdo. Os seus filmes vão além de simples entretenimento, possuem reflexões que abarcam questionamentos políticos, sociais, por fim denuncias feitas através de histórias e personagens que ao mesmo tempo divertem, entristecem. Filmes que têm em comum a característica de nos fazer refletir, despertar consciência para as desigualdades a que estamos sujeitos na sociedade. Com “State violenta” - Verão violento (1959) Zurlini parafraseia a queda do fascismo ao narrar em paralelo semântico à história da aventura amorosa burguesa da jovem viúva Roberta (Eleonora Rossi Drago) forçada a desistir de seus sonhos de amor por Carlo (Jean-Louis Trintignant), um jovem mais novo do que ela, em função de um tabu social. Zurlini nessa sua segunda obra de ficção, cuja história é sua e tem o roteiro escrito junto de Suso Cecchi D'Amico e Giorgio Prosperi continua a demonstrar uma especial atenção à questão da condição feminina na sociedade, tema que abordará em outros filmes. Em State violenta o conflito oriundo do desejo do casal de ficar juntos em meio a preconceitos da sociedade burguesa concorre com o conflito bélico da II guerra e a queda do fascismo. State violenta é ao mesmo tempo um lugar especial para Zurlini explorar o seu tema preferido, a crise existencial emanada da diferença de idade entre amantes de mundos contraditórios. Na constituição das personagens principais Carlo é um jovem de caráter frágil em consequência da vida protegida garantida pelo pai, um interlocutor fascista de relevo na casta social construída por Mussolini. Por sua vez Roberta pertence a uma família tradicional burguesa, é mãe de uma menina pequena e viúva de um oficial militar italiano que lhe impôs uma vida de reclusão, insatisfação amorosa e de falsas aparências. A classe social privilegiada a que ambos pertencem fragiliza suas personalidades no mesmo tempo que os protege do envolvimento direto no palco de operações militares da guerra. A condição geográfica de Riccione, cidade balneária distante dos movimentos de tropas e ataques aliados, serve-lhes também de escudo e proteção. As explosões de morteiros e bombas sentidas a distância é um contraponto ao amor socialmente proibido que explode em seus corações. É difícil para Carlo e Roberta suportar a dor do preconceito vivendo entre a mentalidade provinciana daquela cidade, mas também é perigoso deixá-la diante as circunstâncias da guerra. As luzes dos ataques aéreos inimigos são vistas a noite com indiferença numa distância segura o suficiente para ser contemplada apenas como um espetáculo visual. Sob essas luzes eles se beijam pela primeira vez numa festa intima oferecida por Carlo aos amigos em meio a símbolos fascistas que decoram a casa de seu pai. Os olhares de escárnio e preconceito dos jovens amigos ricos vêm de encontro à decisão de Carlo em assumir seu amor por Roberta; difícil é também para ela aceitar o desprezo da mãe e dos parentes do militar morto. Tais disparates vão ambientar o conflito existencial do casal durante o verão violento de 1943, quando a derrocada do regime fascista começa a explodir em diversas cidades italianas.

Luiz Chiozzotto
(Texto fragmento do ensaio de Luiz Chiozzotto sobre o cinema italiano) chiozzottoit@gmail.com

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Sessão spaghetti western para despertar e aplacar consciências - Roberto Mauri




Roberto Mauri nasce em 1924, em Castelvetrano, Sícilia, Itália. Ator, Roteirista, Diretor cinematográfico. Seu primeiro filme como Diretor Vite perdute - As Portas do Inferno (1959) traz consigo um elenco de estrelas, dentre elas Virna Lisi, Sandra Milo e ele próprio atuando no elenco. Seus trabalhos abarcarão diferentes gêneros, spagheti western, Horror, Aventura, Thriller, sobre este último vale a pena assistir ao filme Le notti della violenza (1965), com Alberto Lupo, Marilù Tolo, Lisa Gastoni, uma perola de sua cinematografia, um figurino com um visual bastante psicodélico num filme a frente de um estilo que viria na década seguinte a dar nome ao popularmente conhecido na Itália como film Giallo = filme amarelo - era chamado originalmente de giallo um tipo de Livro de poucas páginas, cujas capas eram de cor amarela e continham histórias amorosas que envolviam traição, suspense, horror e intrigas, e davam bons enredos a filmes do gênero popular. Le notti della violenza é um clássico do gênero giallo marcado por uma atmosfera noir, por movimentos de câmera que aludem, e uma bela demonstração da femme fatale italiana pela presença sensual de três lindas mulheres no elenco, Lisa Gastoni, Helene Chanel e Marilu Tolo. Do ponto de vista da criatividade em titular seus filmes Mauri pode ser considerado um dos melhores; vale a pena recordar aqueles mais exóticos, curiosamente todos no gênero spagheti western: Il segno del vendicatore; La vendetta è il mio perdono; ...e lo chiamarono Spirito Santo; Seminò morte... lo chiamavano il Castigo di Dio!; Bada alla tua pelle Spirito Santo!. Roberto Mauri é um Diretor que se tivesse tido mais recursos e talvez mais empenho em alcançá-los, poderia ter feito muito mais e melhor durante sua trajetória como Cineasta. 

Luiz Chiozzotto.

chiozzottoit@gmail.com

domingo, 22 de julho de 2018

Sessão spaghetti western para despertar e aplacar consciências - Giorgio Ferroni




Giorgio Ferroni nasce em 12 de abril de 1908 em Perugia, Umbria, Itália. Roteirista, Diretor cinematográfico. Giorgio Ferroni pertence a uma geração de pioneiros do cinema há muito tempo na estrada, pertence a uma época em que se aprendia a profissão trabalhando com outros Diretores; quando não havia Cinecittà, muito menos o Centro Sperimentale di cinematografia, portanto seus primeiros passos foram difíceis. Ferroni foi assistente de Gennaro Raghelli, diretor técnico artístico na Incon, e trabalhou no grande épico italiano Scipione l'Africano (1937), tudo para acumular experiência e se lançar na direção dirigindo sozinho I tre desideri (1937), em uma co-produção com a Holanda que retoma a fabula dos três desejos feitos ao gênio da lâmpada. Após a guerra dirige desde épicos e dramas sem muita expressão, a documentários de muito valor histórico, sobretudo do período de reconstrução da Itália após a guerra, no plano de desenvolvimento econômico estabelecido por De Gaspari no projeto governamental L’ina case. Ferroni é o primeiro Diretor italiano a retratar o tema da resistência italiana na segunda guerra a partir de um argumento de Indro Montanelli, numa época em que o tema ainda não era levado em consideração pela crítica como algo de valor para a cinematografia, senão como um documento histórico isolado da arte cinematográfica. É partir da metade dos anos 60’ que Ferroni torna-se conhecido do grande público ao abraçar o filão dos spaghetti western, quando também passa a usar o pseudônimo Calvin Jackson Padget. Seu primeiro filme no gênero é Un dollaro bucato - O Dólar Furado (1965), com Giuliano Gemma, i filme abre um novo caminho na cinematografia de Ferroni e é o mais conhecido dele no gênero, faz muito sucesso na Itália e fora dela ao atrair um público bastante popular. Ao observarmos sua trajetória sua cinematografia ficou marcada por produções documentais e de ficção, sobretudo de gêneros, dentre eles: Aventura, Western, Horror, Mitológico. Morre em 17 de agosto de 1981 em Roma, Itália.

Luiz Chiozzotto

chiozzottoit@gmail.com

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Sessão spaghetti western para despertar e aplacar consciências - Ernesto Gastaldi




Ernesto Gastaldi nasce em Graglia, Piemonte, Itália em 10 de setembro de 1934. Roteirista, Assistente de Diretor, Diretor. Formado em Economia pela Universidade La Sapienza em Roma, estudou no Centro Sperimentale di Cinematografia onde se formou como Diretor cinematográfico. Gastaldi esteve presente sem ser visto na maior parte dos fotogramas dos filmes italianos entre as décadas de 60’ a 90’ com suas ideias de histórias, roteiros e argumentos para os mais diversos gêneros, sobretudo spaghetti western, quando tornou famosos os personagens Arizona Colt, Django, Sartana, Trinity. Gastaldi dirige apenas cinco longas-metragens sendo suas histórias e roteiros a contribuição mais valorosa ao cinema italiano, os quais valem à pena lembrar: 10,000 dollari per un massacro - Django Mata por Dinheiro (1967); I giorni dell'ira - Dias de Ira (1967); Il mio nome è Nessuno - Meu Nome é Ninguém (1973); C'era una volta in America (1984) etc. Em 1961 Ernesto Gastaldi debuta na direção com o pseudônimo de Julian Berry no filme Libido (1965), um thriller com Giancarlo Giannini, Dominique Boschero e Luciano Pigozzi no elenco. Libido tem a particularidade de ter sido o debute como protagonista de GianCarlo Giannini que aparece com o pseudônimo de John Charle Johns. Entre seus gêneros preferidos de escritura estão o policial, spaghetti-western e noir, também usa os seguintes pseudônimos Ernest Gastaus, Julyan Perry e Gastad Green.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Sessão spaghetti western para despertar e aplacar consciências - Gianfranco Parolini




Continuando a celebração ao gênero spaghetti western, Gianfranco Parolini foi um dos interlocutores do gênero, nasce em 20 de fevereiro de 1930, em Roma, Lazio, Itália. Ator, Assistente de direção, Roteirista, Diretor cinematográfico. Aos 20 anos trabalha como Secretário para Roberto Rossellini em Francesco, giullare di Dio"- Francisco, Arauto de Deus (1950) e como Assistente de Direção para Renzo Merusi, Carmine Gallone, Jürgen Roland e Vittorio Cottafavi. Com Cottafavi em La rivolta dei gladiatori - A Revolta dos Gladiadores (1958), onde também participa escrevendo parte do roteiro. Após esses anos fazendo escola se lança como Diretor cinematográfico com o pseudônimo Frank Kramer, seus gêneros preferidos são o Mitológico e o Spaghetti Western, neste último conquista a fama pelo personagem Sabata interpretado pelo Ator norte americano Lee Van Cleef que aparece pela primeira vez em Ehi amico... c'è Sabata. Hai chiuso! - Sabata, o Homem que Veio para Matar (1969), seguido depois por Índio Black, sai che ti dico: Sei un gran figlio di... - Sabata Adeus (1970) e È tornato Sabata... hai chiuso un'altra volta! - Sabata Vem para Vingar (1971). Anne Baxter, Yul Brynner, Klaus Kinsk criavam certa ilusão nos cartazes dos seus filmes, dando-lhes certa notoriedade, entretanto, seus filmes divertiam um público popular de baixa densidade cultural com produtos medianos, mas eram impulsionados por essas grandes estrelas de Hollywood. Em 2012 dirigiu e atuou em Die X-Männerschlagenzurück, uma comédia feita em vídeo com Tony Kendall e Brad Harris. Gianfranco Parolini morre em 26 de abril de 2018 em Roma.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com