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| Jean-Louis Trintgnant e Eleonora Rossi Drago em State Violenta - Valerio Zurlini |
É
incrível como o que separa os diretores do passado com os de nossa época não
são apenas os anos, e em alguns casos a ausência física em decorrência da morte
de alguns. O que é bastante evidente da parte dos cineastas mais antigos e se concentra no conteúdo de suas obras. Elas quase sempre vêm com algo a mais, metáforas escondidas em chaves de linguagem que
denotam uma preocupação que vai além daquela da forma e do conteúdo e se estruturam em bases eruditas. Os filmes nascem de uma observação da realidade em base a leitura dos
clássicos da literatura, da troca de informações com outros representantes do
mundo artístico e literário. O diretor bolonhês Valério Zurlini,
formado em Direito e História da Arte faz uma trajetória artística pautada pela
ética a qual vem notada pelo seu rigoroso método que contempla uma valoração
tanto da forma como do conteúdo. Os seus filmes vão além de simples
entretenimento, possuem reflexões que abarcam questionamentos políticos,
sociais, por fim denuncias feitas através de histórias e personagens que ao
mesmo tempo divertem, entristecem. Filmes que têm em comum a característica de
nos fazer refletir, despertar consciência para as desigualdades a que estamos
sujeitos na sociedade. Com “State
violenta” - Verão violento (1959) Zurlini parafraseia a queda do fascismo
ao narrar em paralelo semântico à história da aventura amorosa burguesa da
jovem viúva Roberta (Eleonora Rossi Drago) forçada a desistir de seus sonhos de
amor por Carlo (Jean-Louis Trintignant), um jovem mais novo do que ela, em
função de um tabu social. Zurlini nessa sua segunda obra de ficção, cuja
história é sua e tem o roteiro escrito junto de Suso Cecchi D'Amico e Giorgio
Prosperi continua a demonstrar uma especial atenção à questão da condição
feminina na sociedade, tema que abordará em outros filmes. Em State violenta o conflito oriundo do
desejo do casal de ficar juntos em meio a preconceitos da sociedade burguesa
concorre com o conflito bélico da II guerra e a queda do fascismo. State violenta é ao mesmo tempo um lugar
especial para Zurlini explorar o seu tema preferido, a crise existencial
emanada da diferença de idade entre amantes de mundos contraditórios. Na
constituição das personagens principais Carlo é um jovem de caráter frágil em
consequência da vida protegida garantida pelo pai, um interlocutor fascista de
relevo na casta social construída por Mussolini. Por sua vez Roberta pertence a
uma família tradicional burguesa, é mãe de uma menina pequena e viúva de um
oficial militar italiano que lhe impôs uma vida de reclusão, insatisfação
amorosa e de falsas aparências. A classe social privilegiada a que ambos
pertencem fragiliza suas personalidades no mesmo tempo que os protege do
envolvimento direto no palco de operações militares da guerra. A condição
geográfica de Riccione, cidade balneária distante dos movimentos de tropas e
ataques aliados, serve-lhes também de escudo e proteção. As explosões de
morteiros e bombas sentidas a distância é um contraponto ao amor socialmente
proibido que explode em seus corações. É difícil para Carlo e Roberta suportar
a dor do preconceito vivendo entre a mentalidade provinciana daquela cidade,
mas também é perigoso deixá-la diante as circunstâncias da guerra. As luzes dos
ataques aéreos inimigos são vistas a noite com indiferença numa distância
segura o suficiente para ser contemplada apenas como um espetáculo visual. Sob
essas luzes eles se beijam pela primeira vez numa festa intima oferecida por
Carlo aos amigos em meio a símbolos fascistas que decoram a casa de seu pai. Os
olhares de escárnio e preconceito dos jovens amigos ricos vêm de encontro à
decisão de Carlo em assumir seu amor por Roberta; difícil é também para ela
aceitar o desprezo da mãe e dos parentes do militar morto. Tais disparates vão
ambientar o conflito existencial do casal durante o verão violento de 1943,
quando a derrocada do regime fascista começa a explodir em diversas cidades
italianas.
Luiz
Chiozzotto
(Texto
fragmento do ensaio de Luiz Chiozzotto sobre o cinema italiano) chiozzottoit@gmail.com

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