terça-feira, 10 de março de 2015

Punhos Cerrados - Marco Bellocchio



Sobre uma idílica colina em meio aos Apeninos italianos tem uma casa com uma prazerosa varanda, cuja vista dá para uma bucólica cidade rural, o silencio e as nuvens encostando nas janelas é um convite constante à contemplação. Ali vive escondida no seio de uma família italiana tipica, a violência e a fraqueza humana de forma claustrofóbica. Nessa família de Bellocchio a mãe é cega, uma de suas metáforas para falar das características das donas de casa que se anulam para preservar a tradicional família cristã, onde a mulher tem apenas o papel de reprodutora e protetora do lar e nada mais vê. Dos seus quatro filhos, Ale é o mais sereno, mas é doente mental, tem comportamento abobalhado, o outro irmão Leone, é um doente mental diferente, depressivo e mal, é cínico, sarcástico, no mesmo tempo que é muito ligado a irmã Giulia que é meiga, boa; uma representação da figura celestial da mãe, da irmã amiga. Giulia por sua vez é apegada a Augusto, o irmão mais velho, Augusto é aquele que ainda prove a família e de certa forma faz com que todos orbitem sob seus interesses.
Interessante que esse filme, o primeiro longa-metragem de Bellocchio e financiado inteiramente por ele, a época do seu lançamento foi recusado no Festival de Cinema de Veneza, não por ser incompreendido, mas por talvez ser muito além do seu tempo, talvez pela violência que ele representa, sobretudo, uma violência que está dentro dos lares e é muito difícil de ser detectada, senão, após uma tragédia. Como se Punhos cerrados fosse um retrato de uma realidade que não aceitamos poder existir, pressentida, mas que ninguém quer que seja verdade. Mas os meios de comunicação iriam demonstrar com uma frequência incrível que essas pessoas existem, e que iriam se comportar assim nos anos seguintes a década de 60, diante da imagem de si mesmas reproduzida na TV.

Como observou Sandro Bernardi, os filmes de Bellocchio nos últimos vinte anos nunca foram fáceis. Seu trabalho continuou ficando inquieto e cada vez mais isolado enquanto procurava aperfeiçoar seu estilo e capturar momentos de verdade que pudessem explicar os límites da vida diária. Ele queria entender a impossibilidade de aceitar leis, convenções e regras que desabilitam a autenticidade do indivíduo e o mantinham à mercê dos outros e capturar momentos de trusth que pudessem explicar os males da vida diária.”(BRUNETTA 2003), trad. Autor.

Como linguagem cinematográfica hoje sabemos que “I Pugni in tasca” mostrou um caminho no mínimo diferente aos cineastas que viriam após ele. Ao revê-lo hoje, notamos que é um filme que permaneceu jovem, detentor de um certo niilismo que o acompanha sempre, ficou nele uma certa reminiscência grotesca de Buñuel, um formalismo de Bresson. Podemos repudiá-lo, nausear-se com suas imagens, mas é difícil não gostar dele, sobretudo, esquecê-lo. A cena ao som de “La Traviata” com Leone tendo um ataque epilético é de um formalismo grotesco e ao mesmo tempo que nos causa dor, repulsa, também dá prazer. Nos coloca na situação de cúmplice de um delito grave, apresentando o mal numa situação de fragilidade, mas sem isentá-lo de culpa. Esse filme foi indicado por Martin Scorsese entre os 100 filmes italianos que o influenciaram como Cineasta.

Punhos Cerrados - "I pugni in tasca" de Marco Bellocchio,
com Lou Castel, Paola Pitagora, Marino Masé.


Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio sobre o livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz chiozzotto.

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