Elio Petri é um dos maiores cineastas do mundo e o
maior esquecimento coletivo do povo italiano, foi um revolucionário, tocou em temas
que enfureceram os políticos de maneira majestosa, falou duro e com poesia em
seus filmes. Mas na distância do tempo, com o "não querer falar mais
dele", por vergonha ou culpa, a Itália resolveu esquecê-lo. Atitude quase
sempre comum acontecer com aqueles que lutam por condições melhores para todos
e que incomodam a ordem burguesa. No Brasil foram proibidos seus filmes
durante a ditadura militar, por se tratar de conteúdo lesivo ao regime. Porém
mais de duas décadas depois, no final dos anos 80, faculdades de comunicação
começaram a exibir seus filmes, o primeiro deles foi "A classe operária
vai ao paraíso", mais tarde "Um cidadão acima de qualquer
suspeita" cuja atriz principal é a brasileira Florinda Bolkan. Ainda hoje
seus filmes falam de temas atuais, pois a sociedade continua a produzir
desigualdades sobre um suporte democrático corrompido pela corrupção e o crime
organizado. Petri começou a dirigir aos 43 anos, fez pouco filmes pois
morreu uma década depois, mas o que ele nos deixou é imagético. “Buone
Notizie” foi o seu último filme e é impressionante nele o domínio da linguagem
cinematográfica, estamos realmente diante de um gênio da cinematografia. É um
filme que fala de amor, de casais que com o tempo vão perdendo a comunicação
entre si, de reencontros com o passado e que causam náusea por recolocar em
cena tipos que um dia representamos socialmente e que não nos identificamos
mais no presente. Um envelope misterioso contendo uma mensagem intrincada que
pode botar tudo a perder ou não, faz com que o protagonista tenha que
restabelecer contato com um ex colega da escola primária, um tipo bastante
inconveniente e cheio de manias esquisitas e que não mudou muito após tantos
anos. Alguém que o protagonista nunca imaginou reencontrar na sua existência,
mas que está lá naquela carta enigmática. Considerando o período em que o filme
foi feito, dos problemas pessoais que Petri enfrentava em relação ao seu medo
da morte, poderíamos interpretar como uma metáfora de seu alter ego em
conflito. O filme funciona ainda muito bem como um suporte psicanalítico para
Petri abordar questões mais emergentes sócio-políticas de sua época, que
estavam na ordem do dia: a inconsciência da classe média por exemplo para as
questões sociais aliado ao analfabetismo político. E se em suas obras
anteriores Petri tinha Marx como ulterior de seus questionamentos políticos e
sociais, em Buone notizie eles se baseiam em teorias de
Reich e Freud, dentro do terreno à época em voga: a psicanalise e a crise
existencial, esta última que impreterivelmente não permite que o indivíduo
permaneça igual após afrontá-la em sua experiência terrena. O filme em
certos momentos lembra os divertidos filmes de Truffaut dos anos 60/70 vistos a
partir do estilo de narrativa construída por Petri, deferente de seus filmes
anteriores. Buone Notizie tem no papel principal Giancarlo Giannini, que é
também o produtor do filme junto com Petri, tem ainda a participação de Ángela
Molina, Paolo Bonacelli e Aurore Clément.
Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio sobre o livro "Filmes que projetaram
a identidade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto

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