segunda-feira, 9 de março de 2015

Buone Notizie - Elio Petri


Elio Petri é um dos maiores cineastas do mundo e o maior esquecimento coletivo do povo italiano, foi um revolucionário, tocou em temas que enfureceram os políticos de maneira majestosa, falou duro e com poesia em seus filmes. Mas na distância do tempo, com o "não querer falar mais dele", por vergonha ou culpa, a Itália resolveu esquecê-lo. Atitude quase sempre comum acontecer com aqueles que lutam por condições melhores para todos e que incomodam a ordem burguesa. No Brasil foram proibidos seus filmes durante a ditadura militar, por se tratar de conteúdo lesivo ao regime. Porém mais de duas décadas depois, no final dos anos 80, faculdades de comunicação começaram a exibir seus filmes, o primeiro deles foi "A classe operária vai ao paraíso", mais tarde "Um cidadão acima de qualquer suspeita" cuja atriz principal é a brasileira Florinda Bolkan. Ainda hoje seus filmes falam de temas atuais, pois a sociedade continua a produzir desigualdades sobre um suporte democrático corrompido pela corrupção e o crime organizado. Petri começou a dirigir aos 43 anos, fez pouco filmes pois morreu uma década depois, mas o que ele nos deixou é imagético. “Buone Notizie” foi o seu último filme e é impressionante nele o domínio da linguagem cinematográfica, estamos realmente diante de um gênio da cinematografia. É um filme que fala de amor, de casais que com o tempo vão perdendo a comunicação entre si, de reencontros com o passado e que causam náusea por recolocar em cena tipos que um dia representamos socialmente e que não nos identificamos mais no presente. Um envelope misterioso contendo uma mensagem intrincada que pode botar tudo a perder ou não, faz com que o protagonista tenha que restabelecer contato com um ex colega da escola primária, um tipo bastante inconveniente e cheio de manias esquisitas e que não mudou muito após tantos anos. Alguém que o protagonista nunca imaginou reencontrar na sua existência, mas que está lá naquela carta enigmática. Considerando o período em que o filme foi feito, dos problemas pessoais que Petri enfrentava em relação ao seu medo da morte, poderíamos interpretar como uma metáfora de seu alter ego em conflito. O filme funciona ainda muito bem como um suporte psicanalítico para Petri abordar questões mais emergentes sócio-políticas de sua época, que estavam na ordem do dia: a inconsciência da classe média por exemplo para as questões sociais aliado ao analfabetismo político. E se em suas obras anteriores Petri tinha Marx como ulterior de seus questionamentos políticos e sociais, em Buone notizie eles se baseiam em teorias de Reich e Freud, dentro do terreno à época em voga: a psicanalise e a crise existencial, esta última que impreterivelmente não permite que o indivíduo permaneça igual após afrontá-la em sua experiência terrena. O filme em certos momentos lembra os divertidos filmes de Truffaut dos anos 60/70 vistos a partir do estilo de narrativa construída por Petri, deferente de seus filmes anteriores. Buone Notizie tem no papel principal Giancarlo Giannini, que é também o produtor do filme junto com Petri, tem ainda a participação de Ángela Molina, Paolo Bonacelli e Aurore Clément. 

Luiz Chiozzotto
chiozzotto@hotmail.com
Ensaio sobre o livro "Filmes que projetaram a identidade italiana no cinema" de Luiz Chiozzotto

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