sábado, 9 de fevereiro de 2019

Domenico Paolella, o diretor das comédias singelas e descompromissadas


Domenico Paolella nasce em 15 de outubro de 1915 em Foggia, Puglia, Itália. Roteirista, diretor cinematográfico. Inicia profissionalmente num set cinematográfico em pleno regime fascista, como assistente de direção para Carmine Gallone no colossal italiano Scipione l'africano (1937). Terminada a experiência no maior filme da década Paolella se insere na indústria cinematográfica fascista com sede em Cinecittà e dirige pela primeira vez Gli ultimi della strada (1940). O filme apesar de conter significação fascista é bastante documental restando como um testemunho do substrato social da época e insere no panorama cinematográfico fascista um cineasta que em muitos momentos não se deixou levar pelo sistema político do regime. Com a queda de Mussolini Paolella precisa se reinventar e adere rapidamente ao gênero popular de filme de batalhas romanas, piratas e capa espadas em geral.
A luta para fazer filmes populares sempre existiu, pelo menos da minha parte, por motivos de custo. (...) atores verdadeiros, externas, construções, técnicos. E nem sempre isso era possível, mas quando fora, os filmes caminharam, e o público não se sentia enganado (Domenico Paolella) (FALDINI&FOFI, 1984, p. 449). Trad. do Autor
Na intenção de se estabelecer e pôr em movimento um grupo de profissionais técnicos que o acompanhavam há anos, Paolella empreende em 1952 um seguimento popular denominado musicarello, um subgênero italiano novo o qual se resume em fazer filmes para publicidade de cantores de sucesso em um determinado momento, divulgar suas músicas e seus discos. O seu primeiro filme de uma série nesse gênero é Un ladro in paradiso (1952), tendo Nino Taranto como protagonista, famoso cantor italiano dos anos 50. Décadas depois quando Paolella já havia ressignificado o gênero o bastante, dirige “Gardenia, il giustiziere della mala” (1979), cujo protagonista é o cantor popular italiano Franco Galifano. A história discorre sobre um problema social que afeta profundamente a sociedade, o tráfico de drogas entorpecentes em casas noturnas. Gardenia (Franco Galifano) é proprietário de um night romano e não aceita o tráfico, motivo mais que suficiente para travar uma batalha com Salluzzo (Martin Balsam) o chefe do tráfico em Roma. Dentre os inúmeros filmes policiescos feitos na seara da moda do gênero, Gardenia se destaca também pela excepcional fotografia de Sergio Rubini que constrói uma particular atmosfera noir, sobretudo, nas cenas noturnas do night.
Acredito que possamos distinguir entre períodos 48’-55’ prevalece o gênero romano antigo; depois até 64’ o mitológico e o de piratas, depois de 65’ a 70 o western, e até 77 o policial. (...). Quando o filme é mitológico o herói está literalmente nu e combate contra os mitos tremendos daquele tempo e os de sempre, quer dizer, contra o poder. Depois esse herói transforma-se em pirata, época em que os piratas modernos se difundem. No western, ao contrário, o herói é amado, reage em legitima defesa, dispara bem no último momento, um segundo antes que dispare o inimigo (...) (Domenico Paolella) (FALDINI&FOFI, 1984, p 449). Trad. do Autor.

Voltando cronologicamente a sua produção cinematográfica encontramos o gênero comédia, particularmente uma bastante original: "Il coraggio" (1955), com Totò interpretando um viúvo que vive com sua imensa prole mais o seu avô, todos a reboque por onde quer que ele vá. Desesperado diante sua condição econômica precária decide dar fim a sua vida e se atira no rio Tibre. A partir daí o filme – lembrando que é uma comédia de Totò – toma outro rumo completamente inesperado. O sucesso da comicidade com Totò nesse filme rende a Paolella a possibilidade de dirigir um segundo filme com ele, intitulado "Destinazione Piovarolo" (1956). Sábado, 28 de outubro de 1922, o telégrafo da estação passa a mensagem que a Itália a partir deste dia vira fascista - Destinazione Piovarolo é uma Comédia irreverente que tem o Fascismo como pano de fundo – O novo governo instalado transfere Totò para a cidade longínqua, a fictícia Piovarolo, onde os dias passam lentamente e a maior parte do tempo chove. 

Após esses dois filmes com Totò a cinematografia de Paolella engata uma marcha lenta; o subgênero Musicarello está com seus dias contados e antes mesmo do seu declínio, na metade dos anos 60, Paolella se lança num outro gênero popular, a aventura. O filme é I pirati della costa - Os Piratas da Costa (1960), o melhor dessa série de filmes pouco representativos em sua carreira, cujos títulos burlescos anunciam conteúdos afins, quase sempre previsíveis, alguns deles geniais, lugar certo de inspiração para cineastas deste século. Domenico Paolella morre em 7 de outubro de 2002 em Roma.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

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