sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O cinema é uma arte vulgar por conter códigos muito precisos - Carmelo Bene


Carmelo Bene nasce em Lecce, Itália em 1937. Ator, roteirista, diretor cinematográfico. Bene pertence a uma família burguesa, tem uma personalidade contraditória, complexa e anarquica, bem cedo desiste do curso de Direito na La Sapienza para estudar na Academia Nacional de Arte Dramática Silvio d'Amico em Roma e na escola de recitação Sharoff. Até se considerar superior a didática e abandoná-las para formar sua própria companhia de Teatro na qual foi extremamente barroco, iconoclasta, experimental e consequentemente de vanguarda. Possuidor de uma vasta cultura, interpreta grandes clássicos quase sempre alterando seu conteúdo e forma, e por vezes criticando o próprio teatro oficial. Já o seu cinema possui uma continuidade desconstruída, uma linguagem de difícil compreensão para o código tradicional cinematográfico, por esse motivo seus filmes não obtiveram sucesso comercial, exceto na França onde um público sempre em busca de novidades o aclamou, a crítica italiana se divide entre os que o amam e os que o odeiam.  Muito contraditório Bene afirma que o cinema nasceu morto compreendido aquele de Lumiere e o resto, uma arte vulgar por conter códigos muito precisos e por isso o despreza, não obstante tenha feito muito bom uso desse veículo para se expressar.
Se alguém lê Ulisses, pode fechar o livro quando quiser, e isso é impossível fazer no cinema. Se levo o público aceitar certas coisas a nível racional, é uma desonestidade. Para mim, a comunicação é uma corrupção, e é só isso. Não quero que meus filmes comuniquem nada. (...) O cinema? É morto, eu digo há anos, por isso parei de fazê-lo (Carmelo Bene) (FALDINI&FOFI, 1984, p 379) Trad. do Autor.

Bene atuou nos filmes Edipo Re (1967); Creonte (1967), ambos de Pier Paolo Pasolini, Cineasta que admirava e considerava um amigo sincero e para Franco Indovina em Lo scatenato (1967), no papel de um padre. Dirige no cinema Nostra signora dei turchi (1968), com o qual vence o prêmio especial do Juri na Mostra de Veneza. Durante os anos de 1977 a 2002 dirige diversos filmes para TV, participa de diversos programas de entrevistas de maneira sempre contundente chegando a desafiar ao vivo telespectadores de forma inconveniente, inclusive personalidades das mais diversas, como ocorreu uma vez em uma discussão acalorada com o grande ator de cinema e teatro Vittorio Gassman, exibida ao vivo na TV. Bene sem dúvida foi um artista inovador e único no seu tempo, por vezes genial e sempre em busca de uma linguagem inexplorada e conceitual, seja no teatro como no cinema. Morre em Roma em 16 de março de 2002.

Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

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