sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Riccardo Freda, o maior e mais criativo cineasta no gênero aventura dos anos de ouro de Cinecittà


Il cavaliere misterioso - Vittorio Gassman e María Mercader

Seu debute como cineasta é na direção de Don Cesare di Bazan (1942), um filme de aventura muito avante no tempo, uma verdadeira obra de arte partindo de um iniciante, cuja trama é escrita por ele junto de Rossellini, De Sica, Amidei e Zavattini, respectivamente autores neorrealistas. Freda, no entanto, atacaria acidamente anos depois o neorrealismo, principalmente quando a crítica e os intelectuais não reconheceriam seu esforço em fazer valer o seu gênero predileto, que era aquele da aventura ao estilo hollywoodiano. Mas a partir da queda do regime as coisas não seriam fáceis para o prodigioso Freda, com a queda da ditadura de Mussolini ele fica estigmatizado ao regime e é preciso um tempo para se adequar aos novos ares de liberdade e justiça que se respirava na península. Nesse período Freda se transfere ao Brasil a convite do governo do país para dirigir Guarany, um filme sobre um personagem indígena, mito nacional, nascido do romance do escritor brasileiro José de Alencar e com roteiro de Goffredo D’Andrea. O filme de Freda é finalizado em poucas semanas e faz enorme sucesso e lhe dá prestigio no meio cinematográfico brasileiro, ele recebe um dos maiores cachês do governo pelo seu trabalho. Anos depois reconhece em entrevista que foi a maior soma em dinheiro já recebida por dirigir um filme em toda a sua vida. É convidado para se estabelecer no Rio de Janeiro para fazer mais filmes, mas declina ao convite devido à recusa da esposa, a época Gianna Maria Canale, em viver no Brasil. Mas passados alguns anos Guarany se perde não restando cópia alguma do filme - até onde se sabe - em 1996, a atriz e diretora Norma Bengell recoloca em cena este épico tupiniquim que sempre incomoda certa ala direitista nacional por colocar o índio como herói nacional.
Com a soma que Freda ganha com o filme ítalo-brasileiro, ao retornar à Itália pode dar-se ao luxo de financiar seu retorno ao cinema, espera a melhor oportunidade para filmar uma aventura a seu gosto, que acontece com "Il Cavaliere misterioso" (1948), estrelado por Vittorio Gassman em um de seus primeiros papéis como protagonista no cinema, até então escalado para papéis de vilão.
Riccardo Freda nasce em 24 de fevereiro de 1909, em Alexandria, Egito. Roteirista, diretor cinematográfico. É filho de pais napolitanos, vive a tenra infância junto de outros nove irmãos no Egito, onde seu pai se transfere para trabalhar no mercado financeiro. A amizade com sheiks árabes atrai fortunas e seu pai torna-se um rico proprietário de banco naquele país. Mas o destino faria com que não permanecessem juntos; o banco além de financiar a revolução árabe atrai lindas mulheres e assim, por conta de uma amante, seu pai transfere toda a família a Milão para viver seu romance árabe. Para a sorte de Riccardo, não obstante o desfortúnio de sua mãe, agora ele pode ir todos os dias ao cinema. E é em companhia de sua mãe que assiste aos mais significativos filmes dessa época. Sua predileção são aqueles de aventura de Douglas Fairbanks; Rodolfo Valentino; clássicos do cinema mudo que influenciarão sua escolha de gênero cinematográfico como cineasta, bem como sua linguagem que aproveita dos gestos em detrimento a palavras para definir uma ação, estratégia rara hoje em dia e muito pouco usada pelos novos representantes do cinema sonoro da época.
De família muito rica, Riccardo pode se dedicar ao hobby de escultor enquanto cursa Arquitetura e Artes na Universidade de Milão. Entretanto, sua escolha pela carreira de cineasta desagrada profundamente a família e torna-se o único filho tripudiado entre seus irmãos. Mas o pai morre jovem, aos 52 anos, e Freda passa a decidir o seu destino tornando-se no decurso dos anos um monumento do cinema italiano, uma das colunas da sétima arte na Itália.
A base da nova cinematografia nacional italiana, aquela que seria considerada estratégica nos anos bélicos fascistas por Mussolini passará pelas mãos de Freda. Seus primeiros trabalhos são como Crítico de Arte para o jornal "Il popolo di Lombardia" e como Supervisor de produção cinematográfica para a "Elica Film" e "Tirrenia Film". Em 1933 vai para capital estudar Direção cinematográfica no Centro Sperimentale di Cinematografia, que fica bem perto da recém inaugurada Cinecittà, o maior estúdio de cinema da Europa. Nesse ambiente é descoberto por Produtores e Cineastas da época, como Gennaro Righelli, Giacomo Gentilomo, Goffredo Alessandrini e Raffaele Matarazzo, para quem passa a escrever roteiros. Conjuntamente, o seu trabalho burocrático no departamento de censura abre caminho para assistir filmes que eram sucessos de bilheteria na América, mas proibidos durante o regime, clássicos que só seriam vistos pelo público italiano após a queda do fascismo. Essa experiência sensorial servirá de fonte de inspiração para os filmes que ele dirigiria após a guerra.



A criatividade e engenhosidade de Freda sempre estiveram ao seu favor possibilitando realizar com poucos recursos, filmes e efeitos especiais surpreendentes, principalmente a partir de sua parceria com Mario Bava na iluminação de cena e na direção de fotografia. Os filmes de Freda representavam entretenimento certo, equivalente hoje em dia em estilo e diversão aos filmes de Spielberg, considerando as devidas proporções e os recursos técnicos disponíveis a época. Até mesmo seu nome nos créditos ele costumava alterar para dar a impressão de se tratar de filme estrangeiro; usava pseudônimos como Richard Freda, Robert Hampton, Robert Davidson, George Lincoln, Dick Jordan, Willy Pareto; prática que se tornaria usual por outros cineastas italianos a partir de então, visando aumentar a bilheteria para filmes italianos fazendo-se passar por staf norte-americano. Os trabalhos de Freda só não foram à frente nos anos 1950/70, pois ele atuou numa época em que o cinema italiano era referência mundial pelo movimento neorrealista. E para Freda o cinema não é retratar o sofrimento dos desvalidos do pós-guerra, é, sobretudo, ação, tensão e velocidade, puro entretenimento. As histórias que conta em seus filmes possuem uma atmosfera que lembram os filmes mudos que assistiu ao lado da mãe na infância, enredos que não nascem da crônica diária, senão de referencias ao “herói mito”, distante do homem comum, vitima das adversidades da guerra, da pobreza e da marginalidade social, retratados no neorrealismo pelos seus mais fieis representantes.
Freda dirigiu com relativa constância filmes que vão da fantasia do gênero aventura, horror, batalhas romanas ao realismo da literatura, clássicos inesquecíveis como “Aquila nera” (1946), de um conto de Puskin; “I miserabili” (1948), de Vitor Hugo; Romeo e Giulietta (1964), de Willian Shakespeare. O seu filme Spartaco (1953), com Masimo Girotti no papel de Spartacus, de fundo socialista é tão bem construído que os direitos são adquiridos pela Bryna Productions como base para Kirk Douglas desempenhar seu papel de Spartacus no filme homônimo dirigido por Stanley Kubrick em 1969. Seus filmes ao estilo melodrama de espionagem, western e, sobretudo, de horror tornaram-se verdadeiros cult-movies, e são vistos e revistos por uma quantidade de fãs sempre maior a cada nova geração. Procure no Youtube por Riccardo Freda e se surpreenda com o puro cinema de uma época.
Riccardo Freda morre em 20 de dezembro de 1999 em Roma.
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