segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Paolo Cavara, um cineasta com um olhar no documentário e outro na ficção, experimentalismo puro

Anthony Quinn e Franco Nero em Los amigos, direção de Paolo Cavara
Paolo Cavara nasce em 4 de julho de 1926 em Bolonha, Itália. Diretor de fotografia, roteirista e diretor cinematográfico. Seu início no cinema se dá como diretor de fotografia em documentários, seu talento nessa profissão o leva a trabalhar com dois importantes diretores dos anos 50’, Franco Posperi e Gualtiero Jacopetti, para este último Cavara empunhou a câmera e foi autor de diversas sequências usadas nos documentários daquele diretor, porém não creditadas por Jacopetti. Nos anos seguintes, após muitos documentários realizados para si e para colegas ilustres, Cavara dirige seu primeiro longa-metragem “L'occhio selvaggio” - O Olho Selvagem (1967), uma ficção que a julgar pelo passado de Cavara mostra-se muito autobiográfico e autocrítico, sobretudo em relação ao próprio gênero documentário que até então vinha realizando, sobretudo, com Jacopetti. Num roteiro escrito a quatro mãos com Ugo Pirro, L'occhio selvaggio surpreende pela sua sinceridade sobre o meio ao qual estava inserido Cavara. Com esse filme debute, uma espécie de redenção, Cavara revela certos expedientes um tanto desonestos de autores que em busca do sucesso de uma boa história não são fiéis aos fatos, que muitas vezes vazios de significados precisam de um acontecimento inventado. Pela originalidade de sua denúncia e inovação de sua linguagem, Cavara ganha destaque na Itália e em outros países onde o filme é exibido. 
Com L'occhio selvaggio Cavara entra definitivamente no cinema de produção comercial logrando êxito tanto de público como de crítica devido ao seu exótico e inovador experimentalismo. Seus próximos filmes, embora aparentemente diversos, possuem características muito marcantes de estilo e linguagem, sendo eles La tarantola dal ventre nero = A tarântula do ventre negro (1971) e ...e tanta paura = ...e tanto medo (1976), este último um filme de vanguarda para o ano que foi feito e pouco compreendido pelo público. Público esse ainda muito impregnado de significantes de gêneros populares típicos do período, de produção massificada, estereotipada que preservava hábitos e comportamentos conservadores nos espectadores. E em meio a um contagiante gênero Spaghetti western que nascia e lotava salas de cinema por toda a Europa, Cavara dirige seu primeiro blockbuster, um western intitulado Los amigos - Rápidos, Brutos e Mortais (1973). No elenco estão duas grandes estrelas, Franco Nero e Anthony Quinn, dois monstros do cinema. Cavara seguindo os ditames de um cinema comercial o faz mais ao estilo hollywoodiano e o filme, embora se aproveite da ciranda de sucesso do spaghetti western, mantém-se dentro dos padrões do western dos anos 40’, 50’ de Ford, Walsh etc e sem novidades. 
Com “Il lumacone” (1974), Cavara explora o gênero comédia de costumes, mas com uma graciosa carga de erotismo, onde a sensualidade, o frescor e a juventude de Elisa (Agostina Belli) encantam e dificultam a aproximação do apaixonado Lumacone, o lento, vagaroso e tímido Ginetto (Ninetto Davolli), esperto para pequenos furtos, mas que caminha com a lentidão de um caramujo com as mulheres. Davolli é original e gracioso ao retratar a esperteza e a bondade do homem simples italiano em seu desejo sincero de se redimir de um passado comprometedor. O filme tem seu roteiro escrito por Ruggero Maccari, o grande comediante do jornal satírico Marc’ Aurelio. Cavara morreu em 7 de agosto de 1982 em Roma.

Luiz Chiozzotto

chiozzottoit@gmail.com
Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

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