
Houve uma época em Cinecittà que personagens
vestidos de capa, espada e sandálias; turbantes e shakes circulavam
tranquilamente entre as pessoas nos cafés, dirigiam cinquecentos e motorinos, desde
romanos antigos da época do império dos césares a guerreiros árabes acordando
de suas mil e uma noites. Muitos diretores levaram muito a sério esse período
histórico e construíram clássicos que até hoje emocionam pelo seu esplendor
épico. Exemplos como Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz e Ben Hur de William
Wyler quase todo mundo já ouviu falar, mas de As Verdes Bandeiras de Allah
(1963), La vergine di Bali (1972) e Lo scoiattolo (1979) de Guido Zurli, poucos
se recordam. Seus filmes alimentaram com criatividade, inventividade, sobretudo
com muito humor, um gênero que fez sucesso quase uma década inteira, movendo
capital de Hollywood para Cinecittà a procura da genialidade técnica dos eletricistas,
designers e figurinistas italianos. Guido Zurli nasce em 9 de janeiro de 1929,
em Foiano della Chiana, Arezzo, Toscana, Itália. Assistente de direção, roteirista,
diretor cinematográfico. Este intrépido cineasta costumava dizer que entrou
para o mundo do cinema por brincadeira e foi assim que atuou quase todo o
tempo, brincando de fazer filmes. Zurli considerava o meio cinematográfico um
lugar deslumbrante que lhe proporcionava hospedagens nos melhores hotéis,
viagens de 1ª classe ao redor do mundo, assédio feminino, e todo prestigio que acompanha um diretor cinematográfico no auge do sucesso do cinema
italiano. Desde 1957 Zurli vinha trabalhando como assistente de direção quando
surge uma oportunidade de dirigir oferecida pelo colega Sergio Leone em Le Verdi bandiere di Allah - As Verdes
Bandeiras de Allah (1963), num filme de Giacomo Gentilomo que Leone não se
identifica em dirigir.


A partir de então outros convites chegam de outros produtores e Zurli passa a frente da direção cinematográfica propriamente dita. O seu estilo de direção divertido e dissimulado beirando ao grotesco, acaba por perpassar as histórias, argumentos e roteiros que lhe caiam em mãos. Em È mezzanotte... butta giù Il cadavere - É meia noite joguem o cadáver (1966), fica acertado entre o produtor e Zurli que o filme tratava-se de um thriller, no decorrer das filmagens e sem que o produtor percebesse, Zurli realiza o seu capolavoro cinematográfico ao transformar o thriller do contrato firmado com o produtor em uma irreverente comédia thriller de escárnio. Não obstante o desagradável clima entre ele e o produtor, o filme é um sucesso de público. A partir dessa experiência bem-sucedida seu estilo, grotesco, irreverente por vezes trucido prevalece em outros trabalhos variando apenas de gênero, desde western, dramas, comédias a filmes eróticos; vindo a dirigir entre 1963 a 1994, dezenove filmes, alguns inclusive fora da Itália, na África, Turquia, E.U.A e Iugoslávia. Guido Zurli morre em 23 de outubro de 2009 em Roma, Itália.
Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com
Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.
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