quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Guido Zurli, um cineasta que transforma épicos e thrillers em comédias trucidas



Houve uma época em Cinecittà que personagens vestidos de capa, espada e sandálias; turbantes e shakes circulavam tranquilamente entre as pessoas nos cafés, dirigiam cinquecentos e motorinos, desde romanos antigos da época do império dos césares a guerreiros árabes acordando de suas mil e uma noites. Muitos diretores levaram muito a sério esse período histórico e construíram clássicos que até hoje emocionam pelo seu esplendor épico. Exemplos como Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz e Ben Hur de William Wyler quase todo mundo já ouviu falar, mas de As Verdes Bandeiras de Allah (1963), La vergine di Bali (1972) e Lo scoiattolo (1979) de Guido Zurli, poucos se recordam. Seus filmes alimentaram com criatividade, inventividade, sobretudo com muito humor, um gênero que fez sucesso quase uma década inteira, movendo capital de Hollywood para Cinecittà a procura da genialidade técnica dos eletricistas, designers e figurinistas italianos. Guido Zurli nasce em 9 de janeiro de 1929, em Foiano della Chiana, Arezzo, Toscana, Itália. Assistente de direção, roteirista, diretor cinematográfico. Este intrépido cineasta costumava dizer que entrou para o mundo do cinema por brincadeira e foi assim que atuou quase todo o tempo, brincando de fazer filmes. Zurli considerava o meio cinematográfico um lugar deslumbrante que lhe proporcionava hospedagens nos melhores hotéis, viagens de 1ª classe ao redor do mundo, assédio feminino, e todo prestigio que acompanha um diretor cinematográfico no auge do sucesso do cinema italiano. Desde 1957 Zurli vinha trabalhando como assistente de direção quando surge uma oportunidade de dirigir oferecida pelo colega Sergio Leone em Le Verdi bandiere di Allah - As Verdes Bandeiras de Allah (1963), num filme de Giacomo Gentilomo que Leone não se identifica em dirigir. 

A partir de então outros convites chegam de outros produtores e Zurli passa a frente da direção cinematográfica propriamente dita. O seu estilo de direção divertido e dissimulado beirando ao grotesco, acaba por perpassar as histórias, argumentos e roteiros que lhe caiam em mãos. Em È mezzanotte... butta giù Il cadavere - É meia noite joguem o cadáver (1966), fica acertado entre o produtor e Zurli que o filme tratava-se de um thriller, no decorrer das filmagens e sem que o produtor percebesse, Zurli realiza o seu capolavoro cinematográfico ao transformar o thriller do contrato firmado com o produtor em uma irreverente comédia thriller de escárnio. Não obstante o desagradável clima entre ele e o produtor, o filme é um sucesso de público. A partir dessa experiência bem-sucedida seu estilo, grotesco, irreverente por vezes trucido prevalece em outros trabalhos variando apenas de gênero, desde western, dramas, comédias a filmes eróticos; vindo a dirigir entre 1963 a 1994, dezenove filmes, alguns inclusive fora da Itália, na África, Turquia, E.U.A e Iugoslávia. Guido Zurli morre em 23 de outubro de 2009 em Roma, Itália.


Luiz Chiozzotto
chiozzottoit@gmail.com

Texto ensaio do livro "Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema" de Luiz Chiozzotto.

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